A Floresta de Yeshamul guarda mistérios que muitos já tentaram resolver, mas nada além da morte permeia suas histórias. Pouco se sabe sobre o que nela há, pois quem se aventurou, dela tornou-se parte. Dizem ser a porta que liga o inferno ao mundo real, e que o próprio diabo lá caminha, em busca de almas para se apoderar; um território esquecido por Deus, tomado por uma densa escuridão que nem o sol é capaz de iluminar.
Era uma noite fria de inverno, e naquele dia, alguém a desafiou: Parou no alto de uma montanha com a vista limpa da floresta e por alguns minutos apenas a encarou, – Elane honrava a fama de uma excelente mercenária por nunca ter fracassado diante de um desafio que fora lhe proposto. – Sentiu uma leve brisa gelada esgueirar-se por entre os fios de seus longos cabelos loiros e arrepiar-lhe a nuca, mas não o suficiente para desfazer seu sério semblante. Tornou a seguir em frente e nada pôde ouvir além do som de suas pesadas botas de ferro tocando o solo. Trajava uma armadura pesada de um cinza opaco, maltratada pelo estilo de vida de guerreira e repleta de cortes e rachaduras. Em sua cintura, uma espada longa protegida por uma bainha dourada trazia um pouco de cor às suas vestes monocromáticas.
Os líderes e moradores da cidade de Alissar, próxima a Yeshamul, lhe pagaram uma quantia generosa para lidar com o mau que dominava o local e assim que colocou as mãos naquele pesado saco de moedas de ouro, deu as costas e partiu em silêncio, mas com uma postura que passava total confiança em seu sucesso.
Adentrou à floresta. A lua cheia que se destacava no céu desapareceu em meio à neblina, apagando o horizonte e tornando o ar pesado, como se formasse uma camada sob a armadura da mesma, a dificultando caminhar. Não enxergava nada além do negro, sentiu seus ouvidos obstruídos como se neles houvesse água e respirar tornou-se um desafio. Continuou mergulhando ao fundo daquela vasta escuridão, assemelhada às profundezas do oceano, lutando contra a pressão da gravidade e, por um instante, percebeu que se enganou ao pensar que já havia conhecido as trevas. Continuou por longos minutos sem enxergar um metro a sua frente, guiada apenas pelo seu instinto. Tropeçou em algo que lhe remeteu um corpo e usou sua espada para tatear, pois nada enxergava. Percebeu que haviam alguns pedaços espalhados, como se estivessem sido destroçados por algo afiado. Sentiu uma leve pontada em seu peito, quase imperceptível, e o desconhecido a preocupou e a fez relembrar de um sentimento que há muito tempo não sentia: o medo.
Entre os ruídos da grama alta roçando em sua armadura, ouviu ao longe o som da água corrente e à medida que se intensificava, o clima amenizava, trazendo um pouco de nitidez à escuridão. Elane arregalou os olhos ao deparar-se com um enorme lago que refletia a luz da lua, reaparecida em meio ao céu de um negrume atípico, calmo mas que trazia a paz, e surpreendeu-se ao poder admirar algo belo em um momento tão tenso. Um alívio parecido com o de perceber-se no conforto de sua cama ao acordar de um pesadelo angustiante.
Aproximou-se das águas a passos lentos, viajando o olhar pelos arredores, encantada com a copa das árvores cruzando o céu, iluminadas pela lua, formando uma vista digna de ser transformada em um quadro. O som do pisar na grama-rasteira junto à correnteza aliviou a pressão em seus ouvidos e seu peito foi inundado por uma sensação prazerosa, de sentir-se viva e à beira do lago, observou seu reflexo pintado nas águas cristalinas.
Sua paz apagou-se tão rápido como um soprar de velas, pois viu sua imagem se distorcendo junto ao tremor do chão a seus pés. Desembainhou a espada e sem olhar para trás, rapidamente girou seu corpo à esquerda, esquivando-se e desferindo um golpe no seu ponto cego. Sentiu a lâmina aprofundar-se levemente em uma pele grossa e sujar-se de sangue. Algo caiu no lago agitando violentamente as águas. Elane afastou-se da beira e mal tendo se posicionado para defender-se, uma criatura emergiu em uma velocidade assustadora, soltando um grito agudo, ardido, avançando contra a guerreira e um salto foi o suficiente para alcançá-la.
Era esguio, com pernas e braços longos e grandes garras que pressionavam a espada de Elane contra seu corpo e pálido, com os olhos cerrados que escondiam suas pupilas e fileiras de dentes em uma enorme boca sem lábios. Atacou com voracidade, como se ansiasse avidamente devorá-la. Elane desviou-se dos golpes com maestria, rolou por baixo das pernas do grande animal, com cerca de três metros de altura e deslizou a lâmina pelas suas costas, desenhando um profundo e perfeito risco retilíneo que logo coloriu-se pelo vermelho do sangue. A criatura virou-se com ódio, mas quando ensaiou um novo ataque, parou. De repente sua feição banhada pela raiva foi tomada por um ar de espanto, como se tivesse adquirido consciência. Suas pupilas emergiram do cenho que se desfranziu e seu olhar cruzou-se com o de Elane, gerando uma estranha comoção à guerreira. A besta se contorceu e encolheu o corpo, com sofrimento. Rapidamente disparou à direção oposta, desaparecendo por entre as árvores.
Elane respirou fundo e por alguns minutos esperou, afinal, era o único local que não era tomado pelas trevas da floresta. Um grito ecoou das profundezas quebrando o silêncio e a intrigando, e sentiu em seu coração uma profunda tristeza e agonia trazidas junto ao som. Novamente o tremor sob seus pés, agora com o violento chacoalhar da vegetação.
A besta ressurgiu da escuridão com a expressão novamente tomada por ódio e saltou em direção à Elane em uma velocidade assustadora. O rápido tilintar do choque entre as garras e a espada ditavam o ritmo do insano combate e a guerreira viu-se pressionada, defendendo-se instintivamente, não mais podendo prever os ataques do animal. Um pesado golpe vindo de cima a desarmou, cravando a espada no chão e deixando-a indefesa. Tentou saltar para trás, mas tropeçou e caiu por completo e, com as mãos vazias, olhou para a criatura, desesperada, com o ar gélido invadindo seu peito e trazendo a sensação de que estava prestes a morrer.
Em sua última investida, a criatura parou e novamente contorceu-se em agonia e soltando um grito forte, fez com que ecoasse por toda a floresta. Cruzando seu triste olhar com o de Elane, era possível notar as lágrimas que escorriam e a serenidade em sua feição. Fechou os olhos e relaxou-se, permanecendo ali, parada, com os braços soltos ao lado do corpo e os joelhos levemente flexionados. A guerreira aproveitou a deixa, levantou-se rapidamente e cravou sua espada no peito do animal, fazendo com a que a besta esboçasse um leve sorriso de dor e alívio, e ali caísse, morta.
Elane respirou fundo, intrigada. Limpou o sangue da espada e voltando os olhos a criatura, assustou-se com o corpo humano que encontrara. Largou sua arma e ajoelhou-se para investigá-lo, buscando compreender o que estava acontecendo. O chão voltou a tremer, mas antes que pudesse se armar, sentiu seu estômago ser perfurado por enormes garras atravessando seu corpo por completo e erguendo-a a metros do solo. Deu seu último suspiro antes de sentir os dentes cravarem em seu pescoço, era o seu fim.
Durante anos, humanos exploraram a Floresta de Yeshamul em busca de suas riquezas, mas espíritos guardiões lançaram uma maldição que transformava em uma terrível besta a quem lá entrasse com o intuito de ganância, e morariam na pele da criatura com o dever de ajudar a proteger o local. Inúmeros se aprisionaram como monstros e permanecem como protetores. Sua única saída é a morte.
Elane se foi. Pela primeira vez não cumpriu sua missão, mas salvou à uma alma.