• – Primeira parte no post anterior –
  • – O que diz a primeira linha?
  • – Isso eu posso ler?
  • – Não é qualquer coisa que não se pode ler em voz alta, garoto.
  • – Você quase quebrou as barras dessa cela em desespero com o que li – disse Vince, indignado -, achei que qualquer sílaba deste livro fosse maligna.
  • – É necessário ter conhecimento sobre as palavras, entender seus significados, suas origens, o que podem ou não dizer – explica, articulando as mãos pelo ar -, pois qualquer uma, dita da maneira certa, por alguém capaz, pode ser mais letal do que a mais afiada das espadas.
  • – Certo, já entendi – ele volta os olhos para as páginas. – Então essa primeira parte é segura?
  • – Sim, menino – disse, impaciente. – Uma coisa é ler o prólogo, outra é dizer em voz alta o nome de um dos maiores demônios que já habitaram essa terra, e que por sinal, deseja voltar.
  • – Nossa – Vince dá um passo para trás e fecha o livro -, muita informação em uma só frase.
  • – Respire. Serei mais claro. “Esse”, que você citou – Leonel caminha de um lado para o outro com os braços cruzados, mirando o chão, vez ou outra fitando o garoto -, é um demônio bem conhecido, popularmente falando, mas poucos são os que o entendem de fato.
  • – Existem histórias dos que em troca de favores, ceifaram vidas de pessoas amadas, aniquilaram vilarejos, cidades, além dos que disseram ter enfrentado seus maiores medos para tornar seus desejos realidade. Verdade, porém isso é comum a qualquer demônio, e a última coisa que ele é, é comum.
  • Vince mal pisca os olhos, atento a cada palavra de Leonel.
  • – Sua vontade é voltar a caminhar pela terra, não como um espírito, mas com seus próprios pés, com sua própria carne. Mas para isso, é como lhe disse logo menos, é preciso alguém capaz e as palavras certas. Uma de suas opções é esse livro que você segura. Nessas páginas estão sua passagem de volta, e de fato, cada sílaba nelas escritas é malígna.
  • – E por qual motivo você está me contando tudo isso? E por que algo de tamanha importância está ao alcance de qualquer um, em um lugar tão acessível?
  • – O último lugar que alguém pensaria em procurar tal relíquia é em uma simples cripta dominada por esqueletos. Poucos chegaram até aqui, mas o livro serve apenas a quem pode e sabe servi-lo. Por isso me espantei com seu conhecimento sobre malírio, pois a maioria pouco conhece sobre a língua. Aliás, onde a aprendeu?
  • – Foi na infância, com um senhor que cuidava de algumas plantações nos arredores do meu vilarejo. Ele lia diversos livros para mim, e alguns eram em malírio.
  • Leonel franze o cenho, intrigado.
  • – E que fim deu esse homem? Qual sua última lembrança dele?
  • Vince olha para cima e de um lado para o outro com a mão no queixo.
  • – Não consigo me lembrar – Coça o lado da cabeça. – Tenho recordações de nós dois sentados na varanda de sua casa, conversando e lendo. Mas não lembro exatamente do nosso último contato.
  • – Curioso – disse Leonel, erguendo as sobrancelhas com um ar de preocupação -, curioso e preocupante.
  • Fita o vazio por alguns segundos, quieto, pensativo, mas continua:
  • – É exatamente por isso que estou lhe contando tudo isso. Você chegou aqui, foi até o livro e se não fosse por mim, já teria se conectado a ele, assim como eu fiz no passado – ele se aproxima novamente e coloca seu rosto entre as barras segurando-as com ambas as mãos -, mas não tinha ninguém para me alertar do perigo.
  • De repente uma intensa rajada de vento invade o local, tão forte que joga Leonel contra a parede. Vince toma uma postura estranha, olha para cima, começa a folhear o livro e permanece intacto durante a ventania que se intensifica. Bruscamente torce seu pescoço para baixo, sua pupila dilata-se diante das páginas e começa a ler em voz alta:
  • – Asrahba, anesh turides! Valahk Valamor, Krazzaki rashnor!
  • – VINCE! – Leonel grita, levanta-se, mas tem muita dificuldade para movimentar-se. – SOLTE O LIVRO! – com esforço ele se aproxima, mas suas palavras de nada adiantam. – VOCÊ É FORTE, GAROTO, NÃO CEDA!
  • O vento abafa o som da sua voz que mal chega aos ouvidos de Vince, e ele continua:
  • – Vieranes, malak kuro, viek irides, Krazzaki norius!
  • Esqueletos erguem-se em todos os andares, dezenas enfileiram-se e caminham compassadamente ao encontro dos dois no terceiro andar. À medida que andam, nervos surgem em torno dos ossos, músculos constroem-se e lentamente um corpo vai se formando em cada um.
  • Leonel, em desespero, vê-se sem opção e grita:
  • – KRAZZAKI!
  • No mesmo instante todo o vendaval direciona-se a ele, que cai de joelhos, seus olhos reviram-se e tudo para. O vento, os esqueletos… silêncio.
  • Vince volta a si, e assustado, joga o livro contra a parede e espanta-se ainda mais com Leonel no chão.
  • – Leonel! Leonel!
  • Corre com a intenção de entrar na cela, mas antes que se aproxime, Leonel solta um grito ensurdecedor e a ventania recomeça. Os esqueletos continuam a sua marcha e agora respiram, pois possuem pulmões. Começam a gritar, pois agora têm voz:
  • – RÁ… ! RÁ… ! RÁ!
  • Os gritos acompanham cada passada e aproximam-se cada vez mais. Não são mais esqueletos.
  • Vince olha para os lados, sem saber o que fazer. Corre até a estante de livros e procura algo para lhe ajudar. Leonel se levanta, e com o olhar fixo no garoto, contorna a cela lentamente em direção a entrada que fica aos fundos.
  • Vince estranhamente procura algo como se soubesse o que deve achar. Encontra um livro de capa roxa, rapidamente folheia algumas páginas, derruba-o. Suas mãos trêmulas de nervoso mal conseguem segurá-lo.
  • Veias escuras começam a surgir e cortar a pele de Leonel que se aproxima, mas o garoto encontra o que procurava e começa:
  • – Vinde-te remonus! Valak, demodras! Vuruk, Krazzaki!
  • As palavras fream o caminhar de Leonel que se enfurece e luta contra uma força que o empurra contra o chão.
  • – Indete-ves, vultiru! Krazzaki malakas! Krazzaki, lurius!
  • As palavras confundem-se com o vento e os gritos das criaturas que continuam a marchar, mas surtem efeito e cada pronúncia o pressiona cada vez mais. Ele cai, novamente de joelhos, com os braços para trás e o pescoço retorcido para cima. Vince continua com mais intensidade, e dessa vez ele e Leonel pronunciam juntos:
  • – Valak, Krazzaki! Vindi-tes kurius, Krazzaki! Krazzaki! KRAZZAKI!
  • Uma aura negra sai pela boca de Leonel com agressividade, funde-se com a ventania que fica ainda mais forte e circula o local quebrando prateleiras, estantes, tochas e fazendo as armas na bolsa de Vince voarem pelo ar. Ambos protegem-se atrás do escudo e após alguns segundos, cessa o vendaval. A aura concentra-se em uma sombra negra condensada à frente dos dois e logo se vai rumando pelas escadas. Passa pelas criaturas que viram pó conforme o contato, arrebenta as portas da cripta e desaparece no céu.
  • – Garoto, você está bem? – pergunta Leonel, um pouco atordoado
  • – Sim – diz, passando a mão sobre os cabelos -, estou bem.
  • – Acredito que você tenha total ciência do que aconteceu aqui, não?
  • – Uhum – Vince responde, em estado de choque, sem muita reação.
  • – Há tempos me exilei neste lugar, pois já estive na sua pele. Senti o que você está sentindo, e por anos lutei contra isso que você viveu por alguns minutos. Por um longo tempo o enfrentei sem ninguém para me ajudar. Sozinho.
  • Leonel levanta-se, vai em direção aos livros que estavam espalhados pelo chão e recoloca-os na estante que surpreendentemente permaneceu intacta em meio ao caos.
  • – Aqui, protejo quem se aproximar e bloqueio alguns de seus caminhos, no caso, esses livros e eu – ele volta com o olhar perdido no horizonte -, mas pelo visto ele encontrou um jeito.
  • – E agora, o que vai acontecer? O que precisamos fazer? – pergunta Vince, preocupado.
  • – Não sei, garoto. Eu não sei.

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