Dizem que no alto do Monte Krahmun é possível encontrar desde valiosíssimos tesouros e raras relíquias até respostas para perguntas e alívio para angústias. Cobiçado por muitos, sua escalada é o mais mortífero desafio existente nessa terra e que nunca foi completado. Sobre tentativas, incontáveis são as histórias, mas sobre vitória, nunca alguma foi contada. Aos pés do gigante de gelo está Arius, um jovem rapaz que anseia chegar ao topo e protagonizar o papel mais sonhado por todos e jamais vivido por alguém. Traja uma armadura de ferro linírico não muito pesada, um elmo que cobria todo o seu rosto feito do mesmo material, um grande escudo de madeira reforçada e uma espada longa de aço púrico. Por cima de tudo uma longa capa de um belo cinza escuro tecida com pele de lobo. Em sua bolsa, algumas poções de vitalidade, um cantil com água e o resto do espaço preenchido com pães especiais para longas viagens. Sem muito preparo, nem lógica, apenas o que julgou necessário para uma jornada sem perspectiva de tempo, mas com muita sede de sucesso.Começa a subir seguindo sua intuição. O local é misterioso, pois nunca alguém contava o mesmo relato ou encontrava um caminho já percorrido por outros. Muitos desistem, descem e tentam construir uma rota com base no que conheceram, mas nunca reencontram o percurso traçado. Já disseram ter visto yetis, golens e até dragões de gelo, além das tenebrosas histórias de espíritos de antigos guerreiros que assombram o local. Aventureiros se preparam para combater tudo o que já foi encontrado, mas nunca possuem o suficiente para enfrentar os desafios que a montanha lhes reserva. A cada subida, uma nova experiência, um novo monte. É manhã, o sol brilha forte no céu azul e uma brisa leve e gélida assopra sem rumo definido. As primeiras horas foram calmas e por ora, apenas o desafio envolvendo a resistência necessária para uma subida íngreme em puro gelo, o que não é problema para o experiente guerreiro que Arius é.Encontra uma ruptura onde senta-se para alimentar-se e proteger-se das fortes rajadas de vento que se intensificam a cada centímetro acima. Enquanto come alguns pães, observa o trajeto percorrido e pouco a pouco percebe o horizonte desaparecendo devido ao volume de neve. Subitamente uma escuridão mais intensa que a própria noite se apodera do ambiente, impedindo que ele enxergue um palmo a sua frente. Escuta um uivo que não parece vir de muito longe e saca sua espada preparando-se para o combate. Caminha lentamente, atento, mas o ruído causado pela ventania que se faz constante impede que ele ouça muita coisa. De repente é atingido por trás, caindo de bruços, mas vira-se rapidamente e golpeia a criatura usando seu escudo, lançando-a para longe. Levanta-se e aguarda o próximo ataque que novamente veio por trás.Dessa vez sente uma forte mordida em seu ombro direito. Ele puxa o animal pelo pescoço com a mão esquerda que cai de costas bem à sua frente e com a mão direita usa a espada para atravessa-lo. No chão, um enorme lobo morto com presas maiores que o comum. Logo em seguida escuta várias passadas se aproximando em disparada, e sem pensar muito, começa a correr.Ele para, posiciona-se e espera. Um longo uivo ecoa pelos arredores e antes do som se dissipar, Arius é derrubado por outro lobo que o ataca de frente, surgindo da escuridão como se fizesse parte dela. Sua armadura não é forte o suficiente para lhe proteger do ataque. A mordida causa um profundo ferimento em seu braço esquerdo, amassando a braçadeira e imobilizando a mão que empunha a espada. Ao mesmo tempo sente sua panturrilha direita ser perfurada pelo ataque de outro que chegou em seguida. Dois enormes lobos em cima dele, abafando seus gritos de dor. Por um momento o fracasso passou pela sua cabeça, mas a raiva e o ímpeto por superar a situação o fizeram criar forças. Larga seu escudo e desfere um forte soco na têmpora do animal que cai de lado, atordoado. Pega a espada e consegue, com um corte limpo, cortar a cabeça do que estava aos seus pés. Levanta-se rapidamente, e sem dar chance para o outro lobo se levantar, enterra a lâmina em seu pescoço. Respira fundo e observa o sangue escorrer, colorindo de vermelho o negro da escuridão.Duas poções de vitalidade são suficientes para amenizar a dor dos ferimentos que logo cicatrizarão. Continua sua caminhada, começa a escutar o som de folhas e arbustos e a neve dá lugar a grama que deixa seus passos mais sólidos. Ao seu redor, árvores surgem e percebe que adentrara em uma floresta. Enquanto aproveita o ar mais leve e menos rarefeito que banha o local, escuta fortes estrondos que tremem a terra. Se assusta e sobe em uma árvore para esconder-se. O som se intensifica, cada vez mais próximo e o tremor é tão forte que Arius precisa segurar-se nos galhos para não cair. De longe enxerga um enorme tigre branco correndo como se estivesse fugindo de algo e quando o animal passa bem à sua frente, uma enorme clava aparece voando, rodopiando de onde ele veio, o atingindo e jogando-o contra a árvore. Ele observa o cadáver destroncado e antes de tentar decifrar o que aconteceu, um enorme ciclope surge caminhando em direção ao corpo. Ele pega o tigre com uma das mãos e morde metade da carcaça, fazendo respingar sangue por todos os lados, inslusive em Arius. Assustado, se desequilibra, quebra um galho e chama a atenção do gigante. A criatura rapidamente pega sua clava e começa a analisar o local. Caminha por entre as árvores e se afasta, levando um pouco de esperança a Arius.De repente ele se vira, golpeando tudo o que vê pela frente. Um dos golpes passa por cima da cabeça de Arius que se esconde por entre as folhas. O ciclope para bem à sua frente e analisa minuciosamente cada centímetro do que vê. Fica tão próximo de Arius que sua respiração passa por entre os galhos, fazendo sua capa esvoaçar. O gigante desiste e caminha de vez para longe dali, mas antes de desaparecer, surpreendemente profere algumas palavras: “Nós sabemos que você está aqui”. Depois de alguns minutos se recuperando do susto, desce e continua sua jornada. O pão acabara, a água também, só lhe restam algumas poções e pensa estar mais próximo da morte do que do topo da montanha.A caminhada leve pela floresta com ar puro durou pouco, pois a neve novamente tomou conta com um vento ainda mais forte e gélido. Já faz horas que retomou a subida e nada consegue ver aos seus arredores, nada acontece, nada muda. De repente um súbito cansaço toma conta de seu corpo junto a um sono incontrolável, fazendo-o cair na neve, sem forças para aguentar-se de pé. O vento cessa e um estranho calor toma conta do ambiente. Escuta passos se aproximando e o som remete a alguém trajando uma armadura. Sem forças nem para abrir os olhos, não tem ciência do que se aproxima e tudo o que pode fazer é esperar. O que quer que seja se aproxima e ele consegue sentir as passadas afundando a neve ao seu redor. Escuta o desembainhar de uma espada e se desespera. De repente sente uma lâmina atravessando sua coxa esquerda e a dor o faz esbugalhar os olhos, mas nada consegue enxergar, não viu nada nem ninguém, apenas a ferida que se aprofundava e o sangue que escorria. Mais alguns passos moldam a neve pelo seu corpo e novamente um golpe profundo, mas dessa vez em sua outra perna. A lâmina é torcida para a direita e depois para a esquerda, e por fim, é lentamente retirada, fazendo Arius sentir cada nervo ser arrebentado. Passos novamente, mas dessa vez caminhando para longe até desaparecem.Ele tateia o corpo procurando sua bolsa, mas nada encontra. Se quiser prosseguir, terá que ser por suas próprias forças. Apoiado em um fio de vitalidade que lhe oferece o mínimo de lucidez, levanta-se, corta um pedaço da capa para estancar as feridas e contina monte acima. A cada passo uma dor lancinante flutua por todos os seus ferimentos e um rastro de sangue forma-se pelo caminho. Chora aquele choro sem lágrimas, franzindo o cenho e retorcendo a face em profunda dor. Cai de joelhos com as mãos na neve, mas se recusa a desistir. Levanta. A rajada de vento ficara tão forte que joga seu corpo para trás, obrigando-o a usar uma força que não mais existia. O monte resiste. Arius também. Ambos se esforçam em cumprir o que pretendem. Krahmun e Arius batalham incessantemente, mas em algum momento um terá que reconhecer o outro.Uma força descomunal cai sobre seus ombros, pressionando-o contra o chão. Sem forças para combatê-la, ele cede, mas solta um grito que ecoa por toda a montanha. O clima se ameniza, suas feridas se curam, sua armadura se recompõe e Arius se levanta. Ele olha para trás e consegue enxergar o horizonte banhado por um lindo céu estrelado. Todas as terras do reino ao alcance de seus olhos. Ele está no topo. Senta-se em uma rocha e tomado por uma paz nunca antes sentida, contempla o que vê. Por mais algumas horas ele ficou ali, apenas sentindo a paz que tanto procurava e pensando que logo contará a primeira história da primeira vitória sobre o Monte Krahmun.
Published