Hiro e Rokyn se conhecem há pouco tempo, mas tornaram-se grandes amigos rapidamente. Têm uma história, princípios e métodos de agir parecidos, o que foi suficiente para que a conversa daquela noite na taverna, regada a muita cerveja, os unisse e fosse o estopim de uma genuína amizade. São bem metódicos e cautelosos. Só colocam o pé onde existe a certeza de que sairão vivos e que não encontrarão nada além do esperado. Mas nesse mundo em que as surpresas são constantes, cautela não afasta a morte, apenas a atrasa. Experiência prolonga vidas, e por serem novatos, esse dia que se inicia pode trazer-lhes algo inesperado e crucial.
Sentados em um banco de pedra perto da saída da cidade, fazem a conferência dos utensílios.
– Picareta, corda, – Rokyn lista os itens enquanto os coloca na bolsa, pegando-os em uma pilha à sua frente – tochas, pá…
– Confere. – Hiro reclina o corpo e franze as sobrancelhas a procura de algo. – Onde estão as poções?
– Ali em baixo do mapa.
– Ufa! – Respira fundo. – Achei que as tínhamos perdido. Cada uma custou cinquenta moedas de bronze. Nunca vi uma poção pequena de vitalidade custar tão caro.
– São oito, certo?
– Exato.
Rokyn continua a checagem.
– Faca obsidiana, runas de fogo e luz ardente, cogumelos…
– Tudo certo! – Hiro fecha a bolsa e se levanta – Vamos?
Os dois partem em direção a uma floresta situada ao sul da cidade onde passarão o dia caçando goblins. Criaturas fracas, mas que não devem ser subestimadas quando em grupo. Possuem um grande conhecimento sobre eles, pois são seu principal alvo devido ao fato de não oferecerem muito perigo e por ser garantia de uma caçada sem prejuízo.
– Quantos andares essa caverna possui, Rokyn?
– Pelo que diz o mapa, três, e bem grandes, por sinal.
Hiro pega o mapa, curioso.
– Não é nesse local que muitos aventureiros têm morrido?
– Exatamente. – disse Rokyn, despreocupado. – Provavelmente por não se atentarem às emboscadas em grupo. Devido ao tamanho, deve ser o lar de um expressivo número de goblins.
– Estranho, mas sim, faz sentido.
– Fique tranquilo, Hiro. – diz o amigo, dando-lhe uns tapinhas nas costas. – São goblins. Que venham um ou cem, nós sabemos lidar.
Ao se aproximarem da caverna, avistam dois goblins patrulheiros caminhando perto da entrada. Sacam o arco, miram a flecha e atiram. Um tiro de cada foi o suficiente.
– Bem no alvo! – grita Rokyn, rindo e comemorando.
– Droga! Odeio arrancar aquelas orelhas. – lamenta Hiro com cara de nojo. – Ah não, Rokyn, não quero fazer esse trabalho sujo de novo.
– Trato é trato. Quem acertar a primeira na cabeça vence, não é? – Ele começa a remexer a bolsa – Tome, fique com a faca.
Além de portarem adagas, pequenas lanças e clavas que rendem um bom dinheiro para iniciantes, orelhas de goblins são muito usadas em poções e encantamentos de alto nível. Grandes magos e bruxos, os mais interessados, se negam a caçá-los e por isso não se incomodam em pagar bem por elas.
– É nojento, Rokyn! – exclama, sacudindo o amigo pelos ombros. – A pele deles é espessa e o sangue fede de tal forma que me faltam adjetivos para classificar o odor. Eu já fiquei responsável das últimas duas vezes. Você poderia reconsiderar.
– Treine mais e da próxima acerte a cabeça, não o peito. Assim, extraio as orelhas com prazer.
– Guardarei rancorosamente em minha memória essa atitude.
Entram na caverna, acendem uma tocha e logo se deparam com três goblins que já partem em investida. Com seu escudo de madeira revestido de metal, Hiro lança o primeiro ao chão e pisa em seu peito para imobilizá-lo. Usa uma armadura pesada, botas de ferro denso, o que impossibilita a criatura de se levantar. Com um golpe firme usando sua espada de aço linírico, atravessa o estômago do segundo enquanto Rokyn finaliza o que estava caído e logo, com um corte limpo de sua adaga, arranca a cabeça do terceiro.
– Olha aquilo Rokyn. – disse Hiro apontando o dedo. – Um altar.
– Humm… Então existem shamans por aqui. Está explicado o motivo deste lugar ser tão grande.
Goblins shamans são raros. Por possuírem poderes mágicos, algo bem incomum em sua espécie, atraem muitos que se subordinam, interessados em usufruir dessa condição. Dentre as vantagens, têm a inteligência elevada a um patamar que os permitem até ser capazes de forjar armas e armaduras. Em um cenário no qual normalmente são estúpidos e agem totalmente por instinto, é de fato algo raro.
Ao caminharem caverna adentro, chegam a uma ampla área com cerca de dez goblins, sendo um deles, um shaman.
– Hiro, já sabe o que fazer. – disse Rokyn, já partindo em disparada.
Hiro lança uma runa de luz ardente no meio do local que se explode em uma forte rajada de luz branca, cegando todas as criaturas. Rokyn usa uma armadura de couro leve que o permite ser ágil e um capacete de ferro comum, que mesmo sem ornar com sua vestimenta, é essencial para proteger seus olhos do ataque. Cruza o salão com uma velocidade impressionante, alcança o shaman e corta seu pescoço com a adaga. Finalizam os goblins restantes com calma e facilidade, afinal, nada podiam fazer sem enxergar.
– Rokyn, apenas o cajado deste shaman já paga o que gastamos e ainda nos dá lucro. – disse, contemplando o objeto.
– Sem dúvida. – ele limpa o sangue da lâmina da adaga no couro de sua roupa. – Cuidado ao cortar suas orelhas, – Agacha e tateia a criatura enquanto fala – são mais finas e isso exige um corte mais cirúrgico para que não as danifique. Ah, são mais viscosas também.
– Continue nutrindo meu ódio. Continue!
– Hahaha, enfim, – disse, levantando-se – vamos continuar um pouco mais e voltamos à cidade para guardar tudo, principalmente o cajado. Não podemos nos dar ao luxo de perdê-lo.
No mesmo instante percebem uma sombra se movimentando em uma curva bem à frente. Uma criatura empunhando uma arma longa. Imaginam ser outro shaman portando um cajado e logo partem ao ataque usando a mesma estratégia. Rokyn toma a dianteira e antes de fazer a curva e completar seu ataque, é atingido no peito por um golpe inesperado que o lança contra a parede. O ataque rasga sua armadura e faz um corte tão profundo que forma uma poça de sangue em volta de seu corpo largado no chão.
Hiro corre até seu amigo em desespero. Ele estava desmaiado. Procura as poções de vitalidade em sua bolsa, mas nota que estavam com Rokyn e se quebraram com a pancada.
– Rokyn! Rokyn! – ele vira o corpo do amigo e remove seu capacete – Fala comigo!
Muito sangue escorria pela sua boca. Ele não se mexia e parecia estar morto.
Ao olhar para trás, Hiro se assusta ainda mais. Um enorme troll com cerca de três metros de comprimento empunhando a maior espada de duas mãos que já tinha visto. Não sabia o que fazer. Ao mesmo tempo em que pensava em uma reação, também indagava sobre como aquele monstro viera parar ali, mas não chegava a conclusão alguma, nem sobre os porquês, nem sobre como agir. A criatura se aproximava a passos lentos e ele precisava se decidir ou desistir.
Hiro percebe que não conseguiria salvar seu amigo que, aliás, provavelmente estava morto e opta por fugir. Levanta-se e começa a correr na direção oposta ao troll, mas logo a sua frente, outro ainda maior aparece caminhando em sua direção. Não havia outra saída. Ele cai de joelhos em lágrimas, apoia suas mãos nas pernas e abaixa a cabeça, aceitando seu fim. O coração acelera a cada passo das criaturas. Estavam tão próximas que já era possível escutá-las respirando e a cada lenta expiração, um calafrio subia pela espinha e Hiro engolia seco, sentindo o gosto da morte.
De repente, ao invés de sentir o corte da lâmina, sente o calor de uma imensa rajada de fogo que toma conta do lugar.
– Hiro, levanta! Vamos!
Rokyn surpreendentemente aparece, ergue seu amigo e começam a correr.
Ele usou as runas de fogo que formaram uma parede de chamas em torno dos trolls, prendendo-os por tempo suficiente para que fugissem.
Correm até a saída da caverna e floresta adentro em direção à cidade. Depois de alguns minutos, param para respirar.
– Rokyn! – Hiro o abraça. – Jurava que tinha morrido! O que aconteceu?
– Por sorte uma das poções não quebrou com o impacto. – Suspira. – Sorte. Pura sorte.
– Acho que é o maior alívio que já senti na vida – disse Hiro, levantando as sobrancelhas, ainda em choque com a situação. – Mas perdemos tudo, inclusive o cajado.
– Perdemos o cajado, mas não perdemos a vida. Não vejo problemas em passarmos uns dias ordenhando umas vacas ou entregando algumas encomendas para levantar mais dinheiro, afinal, já fizemos tanto isso.
Hiro dá um leve sorriso.
– Uma coisa é certa. Esse mapa precisa ser atualizado.