Meus feitos fizeram-me, em pouco tempo, tornar-me um dos seres mais temidos desse mundo. Inquisidora, cavaleira da morte, peste, a própria morte, enfim, vários foram os nomes atribuídos a mim pelas vidas que tirei e cidades que queimei. Quero contar um pouco sobre a minha história. Para tudo existe uma justificativa e hoje lhes darei a minha.
Meu sonho era ser a maior cavaleira de Trimera. Assim como muitos, treinava e estudava para desbravar os cinco continentes e marcar meu nome na história. Tinha uma vida simples em um vilarejo não muito grande, um tutor que me ensinava e amigos que compartilhavam o mesmo sonho. Tudo corria bem. Com tempo de treinamento, era comum que cada um se afeiçoasse a um estilo de luta, tipo de arma, técnica de desenvolvimento, ou seja, um caminho era estruturado e traçado para iniciarem sua jornada. Comigo não foi bem assim.
Apesar de ser exemplo de esforço e dedicação, nunca tive conexão com nada que me embasasse para criar meu caminho. Minha sensação era de que, sim, eu tinha um norte, mas ele estava bem longe de onde eu procurava. Houve uma época em que por dias me afastei de tudo com o intuito de me reconectar a mim mesma, tentar me entender e afastar as incertezas que já tinham se transformado em angústia. Foi exatamente aí que tudo começou.
Sempre tive sonhos que me intrigavam. Neles, conversava com pessoas que não conhecia, mas que naquele plano pareciam fazer parte importante da minha vida. Na maioria das vezes era uma cena na qual eu as confortava, pois sofriam por coisas que eu nunca era capaz de lembrar ao acordar. Esses sonhos foram ficando recorrentes até que passaram a se confundir com a realidade. Logo eu entenderia que eu precisava me lembrar, precisava saber o motivo de suas aflições, pois isso seria o que me moveria e faria parte do meu propósito.
Lembro nitidamente daquela noite onde me demorei a dormir, mas quando aconteceu, entrei no sonho mais intenso da minha vida. Nele, eu estava sentada à beira de um penhasco, uma multidão de pessoas me olhava lá de baixo e todos tentavam escalar a parede de terra que levava até mim. Ouvia gritos, choro, súplicas. Uma atmosfera densa tomada pelo sofrimento dos que ali estavam e pareciam buscar por amparo. Eu estava imóvel, assustada com a situação e sem ideia do que fazer. Alguns começaram a se aproximar enquanto outros caíam pelo morro em meio às tentativas, mas era nítido o desespero no olhar de cada um e a necessidade em me alcançar. Uma figura se destacou e estava tão perto que eu era capaz de enxergar o sangue que escorria pelas suas mãos feridas por conta da rocha seca e as lágrimas que desciam pelo seu rosto. “Maluna!”, ele gritou. Sabia meu nome e aquilo me assustou ainda mais.
Aproximou-se de tal forma que conseguiu segurar um dos meus pés com a mão direita e esticou a esquerda na esperança de que eu o ajudasse. Hesitei, mas o fiz. Quando o toquei, tudo pareceu se congelar diante dos nossos olhares fixos um no outro. Senti um alívio da parte dele e um sorriso se abriu junto ao fim das lágrimas. Aquele toque, aquele momento foi totalmente diferente de tudo e me levou direto para o meu quarto. Levantei-me no desespero e ao abrir os olhos, o vi bem na minha frente. Olhava-me com o mesmo sorriso e dessa vez foi a sua presença que me acalmou, mas que poucos segundos depois, desapareceu. Pela primeira vez, me lembrei. Estava muito claro em minha mente tudo o que se passou e quando dei por mim, comecei a chorar por conta de uma dor aguda que tomou conta do meu coração. Percebi que não era minha dor, mas sim a dele, e eu chorava suas lágrimas. Sabia porque ele sofria e tudo o que aconteceu. Seu nome era Timur. Foi morto por um grupo de arruaceiros que invadiram sua casa e abusaram de sua mulher e filha antes de tirar-lhe a vida.
Depois daquele episódio, todas as noites, sonhos tão intensos quanto esse aconteceram e percebi que eu tinha um dever diante de tudo isso. Encontrei meu caminho, meu norte. Eu precisava confortar aquelas almas.
Minha primeira ação foi contra Lorak, um mercenário bem conhecido na cidade que sabia se esconder muito bem. Mas ele não contava com minha ajuda proveniente de outro plano. Vozes em minha cabeça me guiavam, dizendo onde, como, quando, enfim, de tudo eles sabiam e logo, eu também. Me esgueirei pelos becos onde ele se escondia e de forma rápida o apunhalei pelas costas. Ele caiu de joelhos e cortei-lhe a garganta. Percebi que em minha investida, uma energia diferente tomou conta do meu corpo e me permitiu atacar com uma velocidade fora do comum. Apenas estranhei e ignorei, mas como disse, essa foi somente a primeira vez.
Novos ataques aconteceram, a pessoas, guildas, tavernas e em todos essa força incomum foi se intensificando e passei a compreende-la. Eles não me ajudavam apenas com informações, mas também com sua força, energia e sede de vingança. Tudo isso somava-se a mim, permitindo-me batalhar de uma forma fora do normal. Lutei contra grupos com mais de dez pessoas e conseguia combatê-los como se fossem ninguém. Eu usava duas espadas e dançava com minhas lâminas entre seus ataques. Parecia brincadeira e eu realmente me divertia. A cada garganta cortada, coração arrancado, a cada morte era possível sentir o alívio de cada um deles dentro de mim e aquilo era viciante. Era como se o ar ficasse mais limpo, era como respirar aquela brisa fria de inverno e às vezes tão libertador como chegar à superfície de um lago após quase se afogar em suas profundezas, sem força para emergir.
Imaginei que com o tempo, satisfazendo aquelas almas, tudo se acalmaria e minha jornada não continuasse tão intensa, mas o mal existente em Trimera era maior do que eu pensava. Por muitos anos viajei pelo mundo matando, queimando, destruindo. Mas somente eu sabia o que motivava minhas ações e uma fama divergente de como eu me enxergava encobriu a minha verdade. Me caçaram, e assim, precisei erguer minhas espadas contra quem não desejava. Virei inimiga de Trimera mesmo com o objetivo de vingar quem nela já viveu e proteger-lhe de seu próprio mal, mas para eles, eu era o mal.
Minha jornada não terminou. Ainda estou viva, matando quando preciso, seja para eles, seja por mim, seja para satisfazê-los, seja para me defender. Mas e vocês, agora que conhecem minha história, como me chamariam?

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