Em alguns minutos, pelo horizonte viria algo nunca antes visto, e o comportamento da humanidade definiria seu futuro, dessa vez, definitivamente.
Em meio ao céu azul daquela manhã, o sol brilha forte acima da cidade de Kedav, de forma a impossibilitar o caminhar descalço pelas ruas de tão quente que o grande astro as deixara. Mais um dia comum. O centro agitado com aventureiros e mercadores negociando, caravanas partindo e outras chegando, alguns mendigam enquanto outros pedem moedas em troca de seus malabares, dentre várias outras cenas típicas do centro de uma cidade grande. Kedav é a maior capital de Teros, regida por uma política firme, muitas vezes autoritária, mas que mesmo diante de seus excessos, atrai muitas pessoas que anseiam a segurança de suas muralhas. Porém não foge à regra: quanto maior, mais sangue foi envolvido em suas fundações.
De repente um estrondo é ouvido não muito longe dali e o silêncio toma conta da cidade. As pessoas se observam espantadas, sem mover um dedo, buscando nos olhares alheios uma explicação que ninguém tinha. Mais um barulho. Agora procuram no céu uma resposta. De novo. O som tem uma cadência de cinco segundos e faz o chão tremer à medida que se aproxima. Uma trombeta é tocada na torre mais alta e junto a ela, a cavalaria parte em direção ao portão principal. O exército se organiza.
– Arqueiros e magos nas muralhas! Cavaleiros, comigo! Quando ele se aproximar, não hesitem!
General Murius posta cada um em suas devidas posições, mas nunca havia enfrentado o que estava por vir.
Era tão grande que barrou o sol, trazendo uma enorme sombra que encobriu Kedav. Mesmo espantados, ninguém conseguia se mover, pois de fato nunca tinham visto um gigante. Ainda mais daquele tamanho. Normalmente os que habitam as profundezas das florestas medem cerca de cinco a dez metros no máximo, mas esse tinha uns sessenta metros, longos cabelos e trajava uma roupa de pano marrom.
– Atirem!
Flechas e bolas de fogo cruzam os céus em direção a ele, mas ao atingirem, não surtem efeito algum e o gigante segue como se nada estivesse acontecendo.
Ao perceberem que seria inútil, o desespero se instala e a população começa a correr em pânico.
– Nilo, vamos!
– Não, Gorn! Preciso ver o que vai acontecer.
– Você tá maluco?! – Exclamou, sacudindo o amigo pela gola da camiseta.
– O exército está ali e a criatura ainda não demonstrou nenhum perigo.
– Cara… – Leva as mãos ao rosto, incrédulo. – Como não demonstrou perigo?! Ele é o perigo! Olha o tamanho daquela coisa vindo pra cá! Acha que tá vindo tomar um café?!
– Talvez. – Puxa Gorn pelo braço. – Não é todo dia que vemos algo assim. Vamos para as muralhas!
– Você vai nos matar!
O gigante se aproxima e nada do que Murius tentou fez efeito. Ele ordena que parem e aguarda. Orgulhoso, finca sua espada no chão e se mantém firme na decisão de defender a cidade, seja como for, recusando abandoná-la. Seu leal exército também permanece imóvel, apenas aguardando, já que nada podiam fazer.
O chão agora treme a tal ponto que precisam se segurar para não caírem, e a cada passo, uma gota de suor desce pelo canto de suas faces. O medo é nítido.
Ele chega e nem torcendo seus pescoços totalmente para trás, conseguem enxergar sua real dimensão. Nenhuma ordem, nenhum movimento. O gigante dobra as pernas e lentamente se agacha. Apoia os braços nos joelhos e movimenta sua cabeça. É possível observar suas grandes pupilas se mexendo, negras e brilhosas, observando cada um. Sua pele é um pouco rugosa, e de forma geral, muito parecido com os humanos. Ele respira fundo e o ar que saiu de sua boca fez com que espadas e escudos de alguns soldados voassem.
– Huummm… – Ele se expressa como se estivesse os analisando. O grave de sua voz ecoa no horizonte e faz vibrar o corpo de cada um. – Como esperado.
Todos arregalam os olhos, espantados com a habilidade de fala da criatura.
– Serei breve. Amanhã voltarei com outros e nada restará deste lugar. Caso queiram conversar, estarei próximo ao grande monte que fica naquela direção. – Disse, apontando.
Ele se levanta, dá as costas e segue para o local que apontara. Todos continuam imóveis, apenas observando, atônitos. Ninguém diz uma palavra e apenas aguardam instruções.
– Boldor, acione Vuldan. Precisamos de reforços urgentemente. – Disse Murius, caminhando em direção aos portões.
– Gorn, vamos! – Nilo vai descendo pelas escadas da muralha.
– Vamos pra onde, Nilo?!
– Em direção ao gigante.
– O que?! – Exclamou Gorn, esbugalhando os olhos. – Você surtou de vez. Você quer morrer, é isso?!
– Gorn, ele os convidou para conversar. – Disse, parando de descer os degraus e olhando para cima. – Já ouviu na sua vida algum relato de alguém conversando com um gigante?
– Quem garante que ele vai só conversar, Nilo?! Nem sabíamos que gigantes falavam, pra começar!
– Alguém precisa fazer alguma coisa, Gorn. Se um nem sofreu cócegas com nossos ataques, quem dirá vários. Murius é orgulhoso e não vai fugir, muito menos conversar. Se apenas deixarmos, isso poderá ser o começo do nosso fim.
– Nilo, quem somos nós pra resolvermos assuntos como esse? Ir até lá é suicídio!
– Tudo bem, Gorn, eu vou sozinho. – Disse ele, continuando a descer.
– Então vai! Não vou cooperar com essa loucura.
Nilo foi sem medo. Caminhou por algumas horas em direção ao monte, pensando no que iria encontrar e também no que dizer, afinal, sabia que o que estava fazendo era loucura, porém necessário.
De longe avistou bem ao alto o gigante sentado em uma beirada, olhando para o horizonte e balançando as pernas. Parecia em paz, somente esperando algo acontecer. Ele olha para baixo e percebe Nilo. Fica imóvel por alguns segundos, franze as sobrancelhas e volta ao que estava fazendo. Depois de mais uma hora, Nilo chega ao topo do monte.
– Não esperava que alguém apareceria. Mas caso esperasse, não seria um menino como você. – Disse o gigante, sem ao menos olhar para trás.
Nilo se arrepiou com aquela voz que ecoava ainda mais devido a altitude. Engoliu seco e disse:
– Eu só queria entender o motivo.
– Para extinguir-lhes dessa terra não faltam motivos, meu jovem. Você deveria saber.
– É… não posso discordar. – Disse Nilo, abaixando a cabeça. – Mas ainda assim é o meu povo e preciso defende-lo. Acredito que uma guerra não seja necessária.
– Admiro sua coragem, garoto. Diferente dos seus, falar em defesa sem ao menos portar uma arma é curioso. – O gigante se vira, cruza as pernas e se aproxima. – Qual a sua ideia então?
– Eu não tenho ideia, haha – Disse, rindo de nervoso. – Gostaria de entender o porquê de somente agora você aparecer e nos ameaçar, e diante disso tentar te fazer mudar de ideia.
– Hahahaha. – O gigante gargalhou. – Você é diferente mesmo, menino. Enfim, meu povo habita uma área sagrada, totalmente escondida e nunca descoberta por vocês. Optamos por nos exilar e cuidar dos nossos e do que nos rodeia, mas recentemente esse cenário mudou. – Ele cruza os braços e seu samblante fica sério. – Aconteceu uma queimada próxima a esse local e o rio que cruza nossas terras amanheceu vermelho, com pedaços de corpos dos seus sendo levados pelas correntezas. Vocês estão mais próximos do que nunca, nos afetaram e diante disso não podemos mais nos abster.
Nilo ouve tudo aquilo e fica calado, olhando diretamente para os olhos do gigante, mas logo respira e responde:
– Reconheço nosso defeitos, mas ainda existem boas pessoas em nosso meio. Não acha injusto que elas sofram pelos erros dos outros?
– Se realmente existem, porque está aqui sozinho, garoto?
Ele se cala.
– Vocês são egoístas por natureza. Você parece diferente e confesso minha admiração, mas ainda assim não é o suficiente. Perceba, garoto. Ao chegar aqui, como lhe recebi?
Nilo continua quieto.
– Eu lhe ouvi. Eles só me ouviram quando perceberam que nada mais poderiam fazer. Fui recebido com fogo e flechas.
– Eles estavam se protegendo! – Exclamou Nilo. – Infelizmente nossa natureza é diferente e somos mais difíceis, mas a intenção era apenas proteger a cidade!
– Eu estava apenas caminhando, garoto, e isso foi o suficiente.
– Caso apareça um ser trinta vezes maior que vocês caminhando em direção ao seu local sagrado, também não iam se espertar?
– Bom, sim…
– Então!
– O motivo vai além disso e você sabe.
Nilo se entristece, senta no chão e apoia o queixo em uma das mãos.
O gigante olha para baixo, respira fundo e solta um leve sorriso de canto de boca.
– Menino, tudo bem. O que você sugere? Se sua ideia for boa, prometo pensar.
Ele se levanta com um enorme sorriso no rosto, mas logo fica sério e começa a andar em círculos, pensando.
– Já sei!
O gigante fixa os olhos nele, curioso.
– Vamos juntos! Vou em seus ombros em direção à cidade. Comigo ali, estranharão e vão querer entender ao invés de nos receber com fogo e flechas dessa vez. Eu acho.
– Hahahahaha. – Gargalhou o gigante, dessa vez tão forte que desencadeou um deslisamento de terra pelo monte. – Você se arriscaria assim? Garoto, você realmente é interessante.
É possível que todos presenciem a cena de um gigante carregando um ser humano no ombro e talvez essa cena mude o rumo da história. Talvez.

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