– Já ouviram falar da Bruxa de Vengot? – Perguntou o homem, se aproximando de uma mesa composta por um grupo de quatro pessoas, dois homens e duas mulheres.
A taverna estava vazia, e a chegada repentina de um estranho deixou dois deles alertas, tendo rapidamente levado as mãos à cintura, prontos para empunhar suas adagas. O terceiro apenas interrompeu as mastigadas no seu frango e o último respondeu:
– Vengot, a floresta ao sul da cidade?
– Exatamente.
– Sim, já ouvi algo sobre. É uma lenda famosa, não é?
– Lenda? Haha. Eu tenho uma história que talvez mude seu conceito. Posso me acomodar? – Perguntou, já puxando uma das cadeiras vazias.
Os ânimos se acalmaram, e apesar de ser uma estranha situação, a doçura em meio à rouquidão da voz do homem transmitia certa segurança. Todos consentiram com um levantar de sobrancelhas.
– Bela espada, senhorita. Aço temperil, creio eu, devido ao brilho. – Disse ele enquanto arrastava a cadeira, já sentado, para se aproximar.
– Uau! Estou impressionada! – Exclamou a cavaleira com um sorriso. – Não é qualquer um que reconhece metais dessa forma, ainda mais um raro como este. – Ela estende a mão. – Prazer, Loria.
Ele a cumprimenta sem dizer nada, apenas com uma leve reverência.
Em seguida, todos seguem o exemplo:
– Lumius.
– Elara.
– Dario. – Ele ergue seu frango. – Quer um pedaço?
Sem dizer seu nome, o homem se recosta, abana as mãos, agradecendo, cruza os braços e começa:
– Asima, Ishna, Miraia, vários são os nomes atribuídos a ela, mas a chamo de Kalissa. É a mãe da floresta, que cuida e a protege. Quando criança e ainda parte de nossa sociedade, foi levada para suas profundezas onde foi abusada por mercadores locais. Dizem que o solo absorveu o corpo que foi deixado para trás, e aproveitando o último sopro de vida da menina, preencheu o vazio com sua essência. Ambos se tornaram um só, mas suas lembranças também continuaram vivas e seu ódio fez aquele lugar se transformar. A floresta passou a sobreviver do sangue de seres humanos. Os corpos se fundem às árvores, suas veias estendem-se até as raízes e dessa forma o sangue é absorvido até a última gota. Isso justifica o desaparecimento de muitos ao longo dos últimos anos, inclusive da pequena irmã de Helena, esta, protagonista da história que lhes conto. Helena é uma grande guerreira. Extremamente habilidosa com qualquer tipo de arma. Líder da guilda local dos cavaleiros, comandante do exército e não me lembro de vê-la perder um duelo contra alguém. Seu grande amor é sua irmã que desaparecera há algum tempo, e diante desse fato que trouxe profunda tristeza, convocou Nargor, um grande amigo, para adentrar a floresta e encontrar a pequena.
O homem faz uma breve pausa, olha para trás e ergue os braços para pedir uma cerveja. Os quatro se olham, claramente incomodados com a atitude, pois já compartilhavam grande curiosidade com a história.
A bebida chega rapidamente, ele toma alguns goles, limpa a espuma branca da barba e prossegue:
– Os amigos combinaram de se encontrar na entrada da floresta assim que o sol nascesse e assim o fizeram. Helena trajava uma linda armadura dourada e um elmo de metal bem fino que ajudava a manter seus longos cabelos ruivos para trás do pescoço. Empunhava duas espadas, pois valorizava a velocidade em combate. Nargor já tinha certa idade, grisalho, mas com muita energia para gastar. Usava uma armadura pesada de um cinza chumbo e carregava nas costas um belíssimo machado de duas mãos. Começaram a caminhar floresta adentro, mas nada diferente encontraram, apenas uma floresta comum com muitas árvores, riachos e animais de diversos tipos. Por dias caminharam e tudo parecia normal, a não ser a estranha ansiedade e sensação de estarem sendo observados que os acometia quando anoitecia. Na quarta manhã, ao acordarem, o sentimento se manteve e perceberam algo diferente. A madeira das árvores parecia estar coberta em alguns pedaços por pele humana e sussurros passaram a ser ouvidos vindos de várias direções. O clima ficou denso, o ar rarefeito, o que dificultou a caminhada e a respiração. Se espertavam a cada passo, pois sabiam que algo estava para acontecer.
– A noite trouxe consigo a escuridão que encobriu o verde da mata e o azul do horizonte. O sol deu lugar à lua que surgiu no céu de forma diferente. Aguardavam a luz que aliviaria a tensão do anoitecer, mas o astro apareceu banhado por uma cor vermelha incompreensível que agravou a agonia e os intrigou. Perceberam que as correntezas dos riachos se intensificaram e o que era água deu lugar a um líquido com aspecto diferente. Era sangue. Escutaram um forte barulho se aproximando pela vegetação e o chão tremia cada vez mais intensamente conforme o som se aproximava. Algo rastejava pela terra velozmente e logo os encontraria. Não havia tempo para fuga. Rapidamente Helena sacou suas espadas, mas quando Nargor foi empunhar seu machado, sentiu seu pé sendo puxado por alguma coisa que o derrubou e o arrastou mata adentro. Sem pensar muito, Helena o perseguiu. Sua velocidade era incrível e logo se viu de frente com o inimigo. Uma enorme criatura com uma longa cauda coberta por grossas escamas e cheia de espinhos. Um tronco com aspecto humano, porém vários braços e uma feição demoníaca. Tinha Nargor rendido em suas mãos e observava a guerreira com tom de desafio. O animal passou sua enorme língua em torno do rosto de Nargor e a enrolou em seu pescoço. Helena precisava agir, mas qualquer decisão errada resultaria na morte de seu amigo. A cada passo adiante, a criatura apertava ainda mais a língua no pescoço de Nargor. Ela se viu de mãos atadas e só podia esperar. O monstro arrancou a armadura que ele portava e lentamente passou suas garras do ombro até a barriga de Nargor, provocando profundos cortes e o banhando em sangue. O ódio tomou conta de Helena que a impulsionou a fazer o impossível. Com uma velocidade impressionante, em uma fração de milésimo de segundo, saltou em direção à criatura e cortou sua cabeça. A impressão de Nargor foi a de ver um raio dourado cortando o espaço em direção ao animal.
– Nenhum outro tipo de sangue havia tocado o chão daquela terra que não o de um humano. O nosso é a fonte de energia daquele lugar e Helena os fez provar o gosto da morte de um dos deles. Naquele mesmo instante uma neblina tomou conta do ambiente e uma brisa gelada trouxe arrepios junto ao frio. Escutaram passos se aproximando lentamente e de repente ambos encontravam-se paralisados. Tentavam respirar, mas era inútil. Não conseguiam puxar ar algum. A cada passo ouvido, o coração de ambos se acelerava e as batidas estavam tão fortes que pareciam que rasgariam o peito. Uma sombra se aproximou e tudo parou. A respiração, os batimentos, o frio, o medo. Sentiram seus corpos nulos, vazios. Sentiram a morte por um segundo. Era a bruxa. Chifres separavam seus cabelos grisalhos, um olho vermelho, outro acinzentado. Era a presença mais pesada que já sentiram em suas vidas. Estavam imóveis, petrificados. Caminhou até cada um dos dois e à distância de um palmo, olhou no fundo de seus olhos sem pronunciar uma única palavra. Com sua força descomunal, Helena soltou um grito que parecia estar preso em sua garganta e partiu em direção à Kalissa, desferindo diversos golpes com a espada, mas todos sendo desviados pela criatura que sorria de forma sarcástica ao se esquivar. Nargor caiu no chão, desmaiado, e sua última visão foi a de ambas desaparecendo na neblina floresta adentro.
Um silêncio paira no ar.
– É isso. – Disse o homem.
– Como assim?! – Pergunta Elara, que se levanta indignada. – Que fim tiveram os dois?!
– Bom, um deles está sentado diante de vocês.
– Então… – Indagou Lumius, franzindo as sobrancelhas.
– Sim, meu nome é Nargor e há algum tempo busco ajuda para voltar à floresta e salvar Helena. Eu sei que ela está viva e continua lutando. Nada é capaz de derrubar aquela mulher.
Os quatro se encostam nas cadeiras, boquiabertos.
– E então, me ajudarão a colocar um fim nessa história?