O sol tinha acabado de se por e Rekon voltava pela última vez para casa. Vestia uma armadura pesada feita de um ferro bem comum na região, um capacete enferrujado, botas não muito apropriadas para caçadas, uma espada longa razoavelmente boa e um escudo de madeira. Começara sua vida de aventureiro há pouco menos de uma semana e estava explorando os locais de caça da região. Nos primeiro dias conseguiu um bom dinheiro caçando goblins nas montanhas ao norte. As adagas usadas por eles interessavam ao ferreiro da cidade e suas orelhas podiam ser vendidas a Minos, o alquimista. Hoje foi um pouco mais ousado, tendo passado o dia nas Cavernas Ilirak, a qual era dominada por trolls. Estava exausto. Armadura repleta de sangue, sendo uma boa parte dele mesmo, e mal tinha forças para carregar o saco com os itens que coletou. Chegou em casa, largou tudo pelo chão e desmontou em sua cama, tendo dormido em poucos segundos com um grande sorriso no rosto, pois o dia seguinte seria especial. Rekon acordou antes do amanhecer, comeu rapidamente alguns pedaços de pão, tomou um copo de leite em um só gole e começou a se organizar para conseguir dar conta de tudo o que pretendia fazer.
Pegou papel, tinta e uma pena. Sentou-se à mesa e em meio às migalhas do café da manhã começou a pensar e escrever.
– Bom, preciso deixar minha armadura e espada com Bawin para alguns reparos e polimento. Vender aquelas coisas para Minos e com o dinheiro comprar algumas poções de vitalidade, resistência, e ah! Claro! Não posso me esquecer das poções de caramin, pois passarei pelo Pântano Lenore e as chances de envenenamento são grandes. Depois preciso comprar um mapa na biblioteca local, ajudar Benjamin a limpar a taverna para ganhar um dinheirinho extra e pela manhã acho que é isso.
Ele vira o papel para listar o que precisará fazer pela tarde, pois à noite irá ao festival de primavera. Todo primeiro domingo de cada estação, a cidade de Kalahar organiza um evento com comidas típicas, danças, peças de teatro, ou seja, muita arte para entreter seus moradores. Será também sua despedida. Rekon continuará sua jornada para além dessas fronteiras, afinal, esse é o sonho de todo aventureiro: Viajar e viver todas as aventuras que esse mundo pode oferecer. Seu sonho é ter seu nome citado em canções de bardos, protagonizar grandes histórias e se tornar uma lenda. E tudo isso estava para começar.
– Pela tarde preciso passar na tenda do Lowir para comprar uma corda nova, mais tochas e uma faca obsidiana para conseguir dinheiro também com peles de animais. Comprar uma bota nova, pois essa está impossível e por fim tomar um café com o velho Gamel antes do festival. É isso.
Rekon sai de casa e caminha sem pressa, observando cada parte da cidade, cumprimentando e parando para conversar com seus conhecidos, afinal, pelo menos por um bom tempo, era a última vez que veria tudo aquilo. Algumas coisas aconteceram fora do esperado. Parou para ajudar Lugri, o fazendeiro, a ordenhar algumas vacas, regou o jardim da senhora Ivy e brincou um pouco com as crianças do orfanato, que lhe encheram de perguntas sobre sua aventura. Foi ali que ele cresceu e lembrou-se de quando seus olhos brilhavam vendo guerreiros indo e vindo. Hoje seus olhos brilharam por outro motivo. Encheram-se de lágrimas, pois a saudade já batia antes mesmo da partida.
O dia passou, cumpriu todas as suas tarefas e foi ao encontro de Gamel. Antes mesmo de bater na porta, ela se abre.
– Entre, menino, o café acabou de sair. – Disse o velho com sua voz levemente trêmula e um sorriso.
Uma casa pequena, mas muito bela. Várias decorações na parede contavam sua história e guardavam as memórias de seu falecido filho. Gamel mora sozinho ali há muito tempo e esse café é tradição entre ele e Rekon.
Os dois sentam-se em uma pequena mesa ao lado da janela e se observam sem falar nada por alguns segundos.
– É, velho. Chegou a hora. – Rekon toma um gole de café e respira fundo.
– Sinto uma preocupação tomando o lugar da empolgação. Como você está? – Disse Gamel enquanto se servia.
– Tudo muda quando as coisas estão para acontecer. Tenho medo de falhar, de não dar conta, de morrer.
– Medo fará parte constante do seu dia-a-dia, meu filho. Não tente superá-lo, mas sim controla-lo, pois será de grande importância para manter-lhe vivo.
Rekon olha pela janela e sorri.
– Que conselho você pode me dar?
– Faça amigos e divirta-se. – Gamel falava tudo com uma voz leve e cadenciada. Não lenta, mas com um ritmo calmo que envolvia quem o escutava. – As incursões em cavernas e batalhas contra grandes monstros serão tão divertidas quanto os momentos em volta da fogueira compartilhando histórias e risadas com seus companheiros.
– E por onde andam seus amigos?
– Rafel, o sacerdote, virou professor de Wintergard. A cavaleira Diana continua viajando pelo mundo e os outros morreram. – Rekon franze as sobrancelhas, preocupado. – É um mundo perigoso, menino. Lembre-se que cuidado nunca é demais.
– Rekon olha para a parede, diretamente para a espada de Shino, filho de Gamel.
– Ele faz muita falta. – Gamel se levanta, vai em direção à espada e a traz até a mesa.
– Lâmina feita de aço úril, empunhadura alternada em madeira e titânio e bainha de couro reforçado. Pode testar.
Rekon se levanta, empunha a espada e desfere alguns golpes no ar.
– Ela é incrivelmente leve e encaixa perfeitamente nas mãos. Estou impressionado. – Disse ele, maravilhado com a arma.
– Leve. É sua.
– O que?! Como assim, Gamel? Claro que não. É a espada do seu filho. – Assustou-se, colocando a espada na mesa.
– É meu presente. Aceite. – Insistiu Gamel, empurrando-a em direção a Rekon.
– Eu não posso, velho. É a espadada do Shion…
– Eu não te chamo de filho atoa, Rekon. Eu realmente te considero como um.
Rekon franze a testa e com um singelo sorriso fita os olhos de Gamel sem conseguir se expressar.
– Guarde-a e sente-se. Temos um tempo ainda antes de o festival começar e preciso te dar umas dicas para que não morra no primeiro dia.
Ficaram ali por mais algumas horas, conversando e aproveitando a companhia um do outro. A aguardada jornada de Rekon está para começar e muitas novas e incríveis histórias prestes a ganharem vida. Um dia, quem sabe, o menino conte ao velho suas aventuras durante o café.