Como eu consegui esse colar? Sim, é bem raro. Talvez seja o único. Foi sorte, pura sorte. Carrego-o comigo para que eu nunca me esqueça do quão perigoso nosso mundo é, e não importa o quão forte ou experiente você seja, ele sempre, repito, sempre pode te surpreender.
Há muitos anos, estava eu em um dia comum caçando uma espécie específica de morcegos que costumam aparecer no outono por essas bandas para se reproduzirem. Alocavam-se nas Minas Ramesh, aquelas bem profundas situadas a oeste do lago Carlin, sabe? Um verdadeiro labirinto. Mercadores locais pagavam bem por algumas partes de seus corpos, como garras, dentes e asas. Ingredientes usados por feiticeiros para fabricação de umas poções bem curiosas. Eu era fraco na época, eles também, e eu precisava de dinheiro, ou seja, o cenário perfeito.
Apesar de o lugar ser bem extenso e, como disse, um labirinto, eu o conhecia como a palma da minha mão. Sempre fui muito cauteloso e não me enfiava onde não tinha certeza que poderia sair vivo, mas aquele dia, aquele acontecido, me mostrou que cuidado nunca é demais.
Eu já estava com uma sacola cheia de itens e um sorriso estampado no rosto, pois sabia que conseguiria um dinheiro legal com aquilo e finalmente poderia comprar a última peça da minha armadura de bronze, um elmo lindo que refletia a luz do sol de forma tão intensa que poderia cegar quem me olhasse diretamente. A rota era a mesma e até sobre o tempo para completa-la eu tinha controle. Alguns metros adentro pela porta principal, eu batia com a espada em algumas ferragens entulhadas de construções antigas para que o som ecoasse pelos primeiros túneis e trouxesse a primeira leva até mim. Ficavam em bando, pois sozinhos são fracos, e para isso, de início, eu precisava usar algumas runas de fogo para dar conta do grupo todo, pois somente minha espada não seria suficiente.
A entrada era bem apertada, o que impossibilitava meus movimentos. Um bom aventureiro sabe um pouco de tudo. Não é porque sou um cavaleiro que não posso colocar fogo nas coisas. Passando pelos primeiros túneis, o teto se afastava de minha cabeça e meus movimentos ficavam mais livres. A cada dez passos um novo ataque e pelos próximos trinta minutos, minhas habilidades com espada e escudo eram suficientes. E necessárias, digo, pois eu não poderia queimar todos, afinal, eu precisava de seus corpos. O caminho se alargava e se estreitava o tempo todo, por todas as bifurcações, descidas e subidas. Sem muito segredo, apenas muito extenso.
Cheguei ao fim da mina e no momento em que decidi voltar, algo estranho aconteceu. Uma neblina estranha tomou conta do ambiente junto a um cheiro forte de enxofre. Estranhei, mas pensei ser consequência do frio e em relação ao odor, alguma reação do fogo com o corpo dos animais, enfim, prossegui rumo à saída. Percebi que as paredes que eram feitas de rochas secas estavam úmidas e soltando um líquido viscoso nunca antes visto por ali. Fiquei curioso e retomei a exploração ao invés de ir embora. Quanto mais eu andava, o chão que também era rochoso começava a ficar lamacento e dificultava o caminhar. Alguns morcegos debatiam-se na lama, pois por algum motivo ali caíram e ficaram presos. Continuei andando e de repente um bando enorme veio em minha direção, mas passaram rapidamente como se estivessem fugindo de algo. Continuei caminhando e o espaço foi se estreitando de tal maneira que precisei caminhar agachado por vários metros. O local foi virando um pântano. O chão, as paredes e o teto totalmente lamacentos e aquele líquido tomou conta de tudo. Percebi que estava submerso até os joelhos e quanto mais fundo eu ia, mais estreito e pantanoso o local ficava.
Continuei e aquele cheiro mal me permitia respirar direito, e me obrigou a recorrer a uma poção que aumentasse a minha resistência, pois caminhar naquele local com a armadura pesada que eu vestira me deixou exausto. O local se escureceu completamente, continuei caminhando, caminhando até que de repente escutei um grito agudo e constante que se aproximava de mim com muita velocidade. Não consegui me mexer de tão assustado que fiquei. Aquilo se aproximava e se aproximou até que eu pudesse enxergar sua fonte. O grito acompanhava o som do rastejar na lama de alguém que vinha até mim em desespero. O cajado que aquela pessoa portava reluzia de maneira que me permitiu ver seu semblante amedrontado. Um de seus olhos estava pendurado, sangrando muito. Cortes por todo seu rosto e os braços cheios de mordidas profundas. Quando chegou até mim, me olhou e disse: Salve meus amigos. Aquela frase antecedeu seu último suspiro.
Seu cajado era de uma madeira rara. Claramente uma arma de alto nível. Vestes finas e me lembro daquele raro chapéu, o Chapéu de Gringor. Poucos daqueles existiam no mundo. Se eu saísse dali com aqueles equipamentos, minha vida estava feita para sempre, mas não cogitei outra opção que não a de seguir adiante e tentar ajudar de alguma forma. Prossegui me rastejando para o fundo da mesma forma que aquela pessoa de lá fugira. O terreno foi ficando cada vez mais inclinado e quando dei por mim, comecei a deslizar sem ideia do destino final. Nada daquilo era comum, mas estava tão angustiado e tomado pelo nervosismo que em nada disso pensava. Vejo uma luz no fim do túnel. Caio em um solo pantanoso e antes que pudesse abrir os olhos, um fortíssimo soco me lança contra a parede, me desacordando. Tenho alguns flashes das três vezes que consegui abrir os olhos antes de acordar de vez. Da primeira, vejo um corpo bem a minha frente com o peito e a perna direita totalmente dilacerados, além do pescoço rasgado. Não sei se desmaiei de dor ou susto ao ver aquela cena. Alguns segundos depois, acordei com um grito. Vejo a alguns metros alguém bem alto, totalmente nu, praticamente albino e bem forte erguendo uma pessoa pelo pescoço com apenas uma mão.
Eu a reconheci. Era uma das bruxas mais fortes da guild local, Merena de Talior. Suas vestes totalmente rasgadas e seu cajado no chão. Estava rendida. Aquele ser a observava agonizar e com apenas um golpe, destronca seu pescoço. Desmaio novamente. Acordo com o calor das chamas de um mago que luta lado a lado com um guerreiro contra a criatura. Percebo que o jogo poderia virar. O ser estava sem um braço, sangrando muito pela boca e com vários cortes pelo corpo. Consigo ver seu rosto. Olhos acinzentados, longos cabelos grisalhos e dentes enormes. Não tinha dúvidas. Era um dos lordes vampiros. Nunca imaginaria que uma criatura milenar daria as caras pelas minas da cidade mais pacata do sul do mundo. Com uma poderosa magia de fogo, o mago acuou a criatura, o que deu espaço para que o guerreiro se aproximasse e fincasse sua espada no coração do animal, ou sei lá como chamar aquilo. O vampiro nada pode fazer, mas ao invés de tentar fugir, abraçou o guerreiro, aprofundando o golpe, mas aproximando-se do seu pescoço e assim tirando sua vida com uma mordida profunda. Em um último lampejo de força, ele salta em direção ao mago que não consegue se proteger de suas enormes garras. Mais uma cabeça decepada. A criatura me percebe, caminha até mim, olha bem no fundo dos meus olhos e cai de joelhos bem à minha frente. Meu reflexo foi cortar seu pescoço com a espada. Sorte, pura sorte. Ela usava esse colar. Dizem que esse pingente vermelho comporta toda a vitalidade das centenas de anos vividas por ele. Por curiosidade, é inquebrável. E olha que já tentei quebra-lo de todas as formas possíveis. Aliás, quebrei um machado feito de aço miliriano tentando golpeá-lo.
Vi fortíssimos guerreiros serem derrotados sabendo bem onde estavam pisando e o que iriam encontrar. Sobrevivi por sorte em um terreno que imaginava conhecer, mas que abrigava um dos maiores terrores dessa terra. Nosso mundo é curioso, intrigante e totalmente imprevisível. Apesar dos pesares, acredito que seja isso que o torna interessante.