– Primeira parte no post anterior –
– Imalas, como o Dante está? – Perguntou Fredo, o dono da taverna.
– Estranho. Não sai de casa há uma semana e sempre que vou vê-lo, depois de cinco minutos de conversa, me pede para ir embora porque não tá bem.
– Acho que vou visitá-lo. Estou preocupado com o rapaz e ele faz uma falta enorme por aqui.
– Bom, você pode tentar, mas…
– Imalas! Quanto tempo, meu amigo. – Interrompe um homem bem alto que trajava uma bela armadura.
– Tirius?! – Imalas corre para abraçar o velho amigo. – Achei que nunca mais o veria! Fredo, duas das suas maiores canecas de cerveja, por favor!
– É, rapaz, depois de ontem, eu achei que nunca mais veria alguém, não só você.
– Onde se enfiou dessa vez? – Imalas se debruça sobre a mesa, curioso.
– Em uma batalha que aconteceu no desfiladeiro de Morius. – Tirius se encosta e respira fundo, como se ainda estivesse cansado. – Estávamos em menor número, tudo parecia perdido, mas conseguimos resistir e virar o jogo.
– Viraram como? – Pergunta Imalas, com um ar de estranheza, levantando uma das sobrancelhas.
– O posicionamento no desfiladeiro impedia que o grande número de soldados do exército inimigo nos atacasse com força total. Ficamos horas aguentando os ataques.
– Foi na base da resistência então? Quantos a mais eles tinham?

– Cinco mil a mais. Mas o que nos salvou foi a chegada dos magos de Carionte. Duzentos dos mais poderosos orquestrando uma das mais incríveis magias de fogo existentes. Não sei te explicar o que foi aquilo.
– Tirius, quando isso aconteceu mesmo?! – Pergunta Imalas, se levantando rapidamente.
– Ontem, por que? – Naquele mesmo momento, Imalas sai em disparada pela porta. – Ei! Tá indo onde?!
– Eu já volto! Me espera aqui!
Imalas corre para a casa de Dante para buscar explicações sobre a estranha situação.
– Dante! Dante! – Grita Imalas, batendo na porta incansavelmente.
Imalas percebe que a porta está aberta, entra, e encontra seu amigo dormindo no quarto ao fundo.
– Dante, como você tá? – Pergunta, tentando acordar o amigo com alguns cutucões. – Preciso conversar com você.
– O que foi, Imalas?
– Sua última música. Quem te contou aquela história?
– Foi um guerreiro que encontrei nos estábulos, por que?
– Encontrei com um amigo agora pouco e ele disse que voltou de uma guerra ontem. As coisas aconteceram exatamente como a sua música dizia.
– Como assim, Imalas? – Dante se senta na cama, passando as mãos no rosto para acordar. – O Que você quer dizer com isso?
– Você tocou na taverna há uma semana.
– Não estou entendendo. – Ele se levanta. – Eu não estou bem, você sabe. Me deixe descansar, por favor.

– Dante, isso é muito estranho! Eu tô preocupado com você!
– Eu não estou bem, Imalas!
No momento em que Dante grita, uma forte rajada de vento escancara as janelas.
O quarto que antes estava escuro, é iluminado pela luz do dia e Imalas percebe o quão mal seu amigo estava. Pálido, descabelado, olheiras profundas, lábios ressecados. Suas mãos com ataduras vermelhas de sangue, ele tinha tocado mais.
– Dante, meu amigo… – Imalas tenta se aproximar com cautela.
– Por favor, me deixa descansar. – Disse Dante, deitando-se.
Mesmo preocupado com a situação do amigo, Imalas é tomado por um sentimento de medo que sobressai sua preocupação. Ele só sabia que deveria sair dali.
É dia. Os raios de sol entram pela janela, mas ainda assim o quarto se escurece em um instante e aquela presença toma conta do ambiente.
– Ele sabe, Dante. Não preciso dizer mais nada.
– Por favor, não! Ele é meu amigo! Converso com ele, ele vai entender! – Suplica Dante, que se levanta e começa a andar sem rumo pelo quarto.
– Se eu pudesse, eu o faria. Logo poderei, caso você não me atrase com a sua falta de senso.
– Por favor. Eu não posso fazer isso!
– Imagino que você não queira sentir mais do que sentiu nos últimos dias, não? Caso você não faça, sabe que posso obriga-lo. E dessa forma, será pior.
Aquilo tinha uma presença muito forte. Tudo parecia mais pesado, o clima, o ar, e evita-lo era impossível. Sua presença tomou uma forma mais intensa do que nas últimas vezes e sua vontade se refletia nas ações de Dante. Sempre foi assim, mas agora ele teve a brecha que precisava e tomar as rédeas, dessa vez, é totalmente possível.

Dante se recolhe no canto da parede e começa a chorar incessantemente. Ele sabia que não tinha mais volta.
Algumas horas se passaram depois do ocorrido e quem chega dessa vez é Rob, que ao se aproximar da porta da casa do irmão, ouve o som de seu alaúde.
– Dante! Abra a porta, meu irmão! – Ele bate várias vezes, mas tudo o que escuta é uma voz cantando bem ao fundo.
🎶Meu sucesso é uma mentira, baseado em ganância e ira…🎶
Dante! – Rob arromba a porta – Cadê você?!
Ao entrar na casa, soube que ele estava ali, e pela primeira vez o escutou.
– Dante! Não ouse, seu moleque! – Grita a coisa.
🎶Cortei caminho da longa corrida e agora acho justo pagar com a vida…🎶
Fale comigo, irmão! Onde você está?!
Ele procura em todos os cômodos, mas não o encontra. Apenas continua ouvindo a triste melodia tocada por Dante e suas palavras preocupantes.
🎶…Não aguento essa dor, me perdoem quando eu for
Mas junto comigo, também se vai todo o perigo…🎶
– Aaaahhhh! Seu idiota! – Com esse grito, uma sombra enorme se forma no meio da casa.
Rob ignora e continua procurando o irmão. Ele e a coisa estavam desesperados, mas nada podiam fazer. Dante continuava cantando e o desfecho temido parecia inevitável.
🎶…Tudo que eu trouxe, tudo que causei, comigo será enterrado
Ele se vai junto comigo quando as cordas cessarem junto a todo o meu sangue derramado🎶

Leave a comment