– Tio Reno, o que você fez de diferente dos outros pra ser tão famoso? – Perguntou Zek
– Como assim, moleque? – Estranhou Reno, levantando a sobrancelha.
– Não costumamos ouvir muitas histórias sobre #sacerdotes, mas sobre o senhor já ouvimos muitas – Disse Nelia, apoiando-se sobre o joelho do homem que estava sentado.
– Normal, crianças – diz Reno com um leve sorriso – #bardos preferem cantar sobre quem abre feridas, não sobre quem as cura.
– E por que cantam tanto sobre o senhor? – Perguntou Nelia.
– Mesmo meu foco sendo outro, já abri muitas feridas, pequena.
– Usando seu cajado, tio? Na paulada? – Perguntou Zek
– Não, idiota – disse Reno rindo e balançando a cabeça – um sacerdote pode ser mais letal com as palavras do que um guerreiro empunhando a mais afiada das espadas. Para se proteger a vida, é preciso conhecer a morte de perto.
– Então por que não passam a ocupar a linha de frente? – Questionou Nelia.
– Nosso propósito é outro. Além de que sem o nosso suporte na linha de trás, não existiriam os raios da espada do trovão que cortou o pescoço do dragão Nahur, nem Rioko teria suportado tantos golpes diretos do gigante Cassius na batalha de Tedras.
– Isso a gente já sabe, tio – retrucou Zek – queremos saber como o senhor foi capaz de derrotar Tidus em um duelo ou como sozinho protegeu nosso exército inteiro na última guerra.


– Hahahaha. Vontade, moleque. Vontade. Poucos escolhem esse caminho, pois a maioria se interessa mais por empunhar uma espada do que recitar uma prece. Reconhecem nossa importância no campo de batalha, mas raramente olham para trás. Apenas esperam que façamos o nosso trabalho. Vocês estão com espadas de madeira na cintura. Já viu alguma criança com um cajado ou livro nas mãos?
– Não – Responderam juntos Nelia e Zek.
– Um dia fiquei chateado, mentira, senti muita raiva disso tudo e decidi provar que poderia vencer quem eu quisesse em um duelo. Conhecimento é capaz de superar qualquer coisa, crianças, lembrem-se disso – os pequenos ouviam com atenção e mal piscavam os olhos – Tidus sempre foi muito arrogante e chegou à batalha parecendo não estar preocupado. Lembro até que estava um pouco bêbado. Ele é um guerreiro excelente, mas me subestimar foi idiotice. Sua espada era feita com minério de ferro encontrado em Kundaff e sua armadura com crematite, um mineral de uma natureza similar. E qualquer um que tenha um pingo de curiosidade sobre ciência, sabe que esse tipo de material ao reagir com ácido alecrionte, na quantidade certa, tem como resultado o zero absoluto. Banhei meu cajado com essa substância e apenas esperei o golpe. Ele quebrou com a defesa, mas aquele movimento foi o último de Tidus que ficou parado ali por algumas horas.


– Tio, eu não entendi nada, mas isso pareceu incrível – Disse Zek com uma feição confusa e ao mesmo tempo impressionada.
– Ele foi congelado, seu burro – debochou Nelia – você deveria ler mais.
– Uau – disse Reno, espantado – exatamente. Por semanas fui procurado para ensinar técnicas de magias de gelo, mas foi apenas química.
– E a última guerra? – Questionou Zek.
– Aquilo foi uma mescla de muita experiência e também conhecimento. Já no fim da batalha, eu era o único sacerdote de pé, mas o conflito estava longe do fim. Por mais algumas horas fui capaz de me atentar à cura de cinco grupos diferentes, além de me responsabilizar pela anulação dos feitiços inimigos contra nossos templários da linha de frente. Tudo isso graças ao manejo exato do tempo de cada prece junto ao consumo contínuo de uma poção de mana especial que desenvolvi.
– Nossaaaaa! – Dizem ambas as crianças, chocadas.

– E por último um episódio que apesar de me doer, vale lembrar. Tentei a primeira e última vez uma magia de transferência de energia vital. Um procedimento extremamente complicado, no qual é necessário envolver com magia cada ponto das sinapses cerebrais de ambos os envolvidos e fazer uma ponte perfeita, sendo a grosso modo, por onde a vitalidade será transferida. Lady Yela, uma grande amiga, deu a vida à Princesa Elara que naquele dia foi envenenada e morreu. Yela me convenceu a fazer o ritual dizendo que nunca me perdoaria caso negasse. Digo que foi a última vez, pois tudo acontece como tem que acontecer. Mexer com a vida e a morte dessa forma é como brincar de Deus e ouçam o que eu digo – Reno olha bem no fundo dos olhos de Zek e Neila – se afastem disso.
– Tio, eu quero ser um sacerdote – Disse Zek, se levantando cheio de ímpeto e energia.
– Vai precisar estudar muito para ser melhor que eu – Provocou Nelia.
– Tio Reno, você pode nos ensinar?! – Perguntam juntas as crianças.
– Hum, não sei. Me aposentei já faz um tempo – Reno recua, cruzando os braços.
– Pooorr favooorrr – Insistem juntas as crianças, ajoelhando a seus pés.
– Se vierem até mim em menos de três horas com uma poção de neferite perfeita, posso pensar. Já lhes adianto que os ingredientes necessários são magnato e porolinite.
– Combinado! – Grita Zek, que sai correndo.
– Tio, magnato e porolinite não são ingredientes metamórficos? – Nelia olha para Reno com um ar de reprovação – neferite é uma poção de vitalidade, mas é produzida com outras coisas.
– Sim, hahaha. Você realmente está bem à frente do seu irmão. Mas por ora acho melhor correr atrás dele, antes que ele volte até aqui pulando como um sapo.

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