— Primeira parte no post anterior –
Usando um golpe com as pernas, consegui lançá-lo para trás. Mal pude levantar, pois em um piscar de olhos ele já avançava em uma nova investida. Dessa vez eu não tive chance, e quando percebi, seus dentes estavam esmagando minha coxa direita, pressionando com força, dando a impressão de que ela estava prestes a ser arrancada. Concentrei toda minha força no meu punho direito e desferi um golpe em sua cabeça. Eu estava sem armas, mas eu era bem forte, e aquilo foi o suficiente para atordoá-lo por alguns segundos. Consegui ficar de pé, mas ao pisar pela primeira vez com a perna direita que estava ferida, senti na alma a dor causada pela mordida. Parecia que meus nervos estavam por um fio e logo arrebentariam, mas a adrenalina era maior e consegui me afastar. Achei um tronco de árvore pelo caminho, mais ou menos um metro de comprimento e bem firme. Passei por entre algumas rochas e logo estava em um campo aberto onde tudo que eu via era o branco da neve. Olhei para trás e logo vi o azul de seus olhos brilhando novamente no horizonte, mas dessa vez juntamente ao vermelho do sangue que escorria pelo seu focinho como consequência do meu soco. Ele caminhava com calma, me olhando séria e fixamente. Era nítida a cautela que envolvia seus passos, pois ele reconheceu que não estava diante de uma presa comum. Ficamos parados nos encarando por um momento. Eu não tinha condições de fazer nada além de responder ao seu ataque. Eu tinha uma chance, e se eu falhasse no plano traçado, seria meu fim. O silêncio e a espera findaram e ele avançou. Pulou com suas patas em meu peito como da primeira vez, e no meio da queda, agarrei os pelos de sua nuca com a mão direita para jogá-lo para o lado. No chão, com a mão esquerda, levei o tronco ao seu pescoço, assim, conseguindo enforcá-lo segurando cada ponta da madeira com uma das mãos.

Era o único jeito, pois somente com meus braços não seria possível devido ao seu tamanho. Por um momento eu achei que não conseguiria segurá-lo. Ele era extremamente forte e se debatia de uma forma que fazia minhas mãos quase soltarem o tronco várias vezes. Fechei meus olhos, acreditei e foquei toda a força nos meus braços. Ele foi parando devagar, sua respiração cessou e a chama azul se apagou. Fiquei deitado ao lado do corpo por alguns minutos recuperando o fôlego. Recuperado, levantei, pois precisava continuar em frente, mas a adrenalina havia findado e agora era impossível ignorar a dor do ferimento. O tronco ainda foi de grande auxílio como bengala, mas a cada passo dado sentia meus nervos repuxarem, um calafrio subia pela espinha e ao juntar-se com o ar gelado das montanhas, intensificava meu sofrimento. Continuei por algumas horas, mas eu não aguentava mais. Caí na neve lamentando não ter forças para prosseguir e pensando que de fato a jornada se encerraria sem mal ter começado.
Para a minha surpresa, acordei. E sem dor.
A primeira coisa que eu vi foi a copa de uma grande árvore a qual eu estava deitado por entre suas raízes. Em volta de mim eu só via verde, e o verde mais vivo que já tinha visto em toda minha vida. Arbustos, folhas, grama, árvores que pareciam estar vivas e era possível sentir a imensa energia que cada detalhe daquele lugar emanava. Aquilo era tão lindo que nem me preocupei em questionar como fui parar ali. De repente, vejo algo que eu nunca tinha sonhado em ver. Uma Dríade. Fiquei imóvel observando aquele ser mitológico, sem conseguir esboçar nenhuma reação. Ela me olhou, sorriu e desapareceu. Eu não sabia se ficava feliz por ter visto algo tão raro e por ter sido salvo, ou se ficava agoniado por não saber o motivo pelo qual ela me salvou, afinal, Dríades são protetoras das florestas e da natureza e eu nunca ouvi alguma história que envolvia relação com humanos, aliás, sempre nos viram como uma ameaça. Enfim, só mais um mistério para enlouquecer minha mente.

Dias, 3, 4 e 5
Passei um dia todo naquela linda floresta e explorei diversos ecossistemas daquela região, inclusive as Ruínas Kagui, lugar extremamente curioso e misterioso. Por toda a sua volta existiam diversos blocos retangulares de pedra com símbolos azuis que ninguém nunca conseguiu decifrar. Existiam vários fixos no chão e também flutuantes. Passei um dia todo por ali tentando encontrar qualquer resposta e aquela experiência foi sensacional. Há anos eu não investia esforços em algo que não me trouxesse alguma recompensa material, e estar ligado com a terra daquela forma simplesmente com o intuito de compreendê-la, foi incrível.
O Fim
Amigos, nesse momento me encontro deitado nas areias do Deserto de Karama empregando o que me resta de energia para escrever essas linhas. O dia ainda não chegou ao fim, mas talvez o meu tempo sim. Decidi caminhar por esse lugar imenso que sempre foi perigoso devido às diversas tempestades de areia e escorpiões gigantes habitantes de suas profundezas, e que, aliás, nunca existiu nada mais além disso por aqui, mas algo me fez sentir que deveria vir e de fato eu estava certo. Caminhei por três dias inteiros, minha comida e água acabaram ontem e eu estava perdido. Da mesma forma que não me suportava mais em pé caminhando pelas montanhas de gelo no início, agora, no fim, caí na areia quente desse gigantesco deserto e sinto minha vida evaporar junto a cada gota de suor que escorre pelo meu rosto. Mas eu estou feliz. O que eu gostaria de dizer antes do último suspiro, é que encontrei uma resposta para o que eu buscava. Há poucos instantes, antes de cair, a terra falou comigo. Tomou um formato humano usando grãos de areia, personificou-se bem em minha frente e falou. Mesmo se eu tivesse tempo, acho que não conseguiria expressar ou explicar a interação que tivemos, pois o que me foi dito, não foi através de palavras, mas sim através de… não sei dizer. Enfim, eu realmente gostaria de ajudá-los a compreender o que eu compreendi, mas a conclusão que eu cheguei é que mesmo se eu pudesse, não deveria. Essa é uma resposta que cada um deve buscar individualmente. E ela não está aqui no Deserto de Karama. Esse foi apenas o fim da minha jornada e o local é apenas um detalhe. Eu realmente queria uma resposta e vim atrás disso com todas as minhas forças. Eu estava disposto a tudo, a sacrificar o que fosse necessário, não existiam barreiras, aliás, elas podiam existir, mas eu não as considerava. Talvez seja esse o segredo.
Bom, pelo visto ainda tenho tempo para dizer algumas palavras, e existe algo bem interessante que posso lhes dizer. A questão não é por que somos, estamos ou fazemos, mas sim…

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