Sempre fui conectada à floresta. Cresci em seus arredores em um pequeno vilarejo que sobrevivia graças às suas riquezas. Era uma relação de assistência mútua entre ambos. Nós aproveitávamos o que ela nos provia, como a água limpa dos rios e os belíssimos frutos que em suas árvores cresciam e nós a protegíamos e cuidávamos com carinho e da melhor maneira possível. Nosso vilarejo era pequeno, poucas pessoas moravam ali e eu amava a nossa vida. Passava o dia inteiro explorando aquela enorme floresta que não parecia ter fim e tudo nela era tão puro e seguro que nunca foi uma preocupação para os meus pais me deixar andar sozinha por lá. Um imenso rio de águas cristalinas a cortava com uma calma correnteza, emitindo aquele gostoso som capaz de relaxar qualquer alma. Árvores imensas cobriam a visão do céu com infinitas folhas e troncos que permitiam que apenas alguns feixes de luz do sol por ali passassem. Tudo sempre foi perfeito, mas nossa relação estava para mudar drasticamente. A floresta e o vilarejo viviam como um só e tudo funcionava sem muito segredo: Ajudar para ser ajudado. Cuidar para ser cuidado. E assim foi por muitos anos até que um novo líder foi eleito pelos moradores da vila. Até então tudo bastava. Tínhamos o que era necessário para vivermos uma vida tranquila e nunca pensamos ou sentimos necessidade de buscar mais do que aquilo. Dermont assumiu a liderança e trouxe consigo seus ideais de expansão para o vilarejo que seria possível com a exploração da floresta. Ele era astuto e com seu grande carisma logo conseguiu o apoio de grande parte dos moradores, criando necessidades em seus corações que nunca antes existiram. Entendo que a ambição é intrínseca ao ser humano, mas a ganância é um pecado, e ela os levaria à ruína.
Minha relação com a floresta era única. Eu conhecia cada centímetro daquele lugar, ainda mais depois de tudo ter mudado e ali realmente ter se tornado minha casa. Meus pais foram presos por demonstrar resistência ao novo regime e por sorte consegui fugir. No começo eu apenas observava, pois nada podia fazer contra a exploração violenta que começara sob comando de Dermont e seu novo exército fortemente equipado com armas e armaduras feitas através dos minérios e metais extraídos das profundezas da floresta. Tudo fluía muito bem para o vilarejo, que aliás, se tornou uma cidade em crescimento exponencial. Mas a floresta já começava a responder. A água já não era mais tão limpa e os frutos estavam escassos. Essa foi a primeira resposta, mas logo veio o primeiro evento que demonstrou que aquele lugar não era comum.
Em um começo de tarde, Dermont avançou com um grupo de quinze pessoas para continuar a exploração de uma jazida de minério de ferro localizada próxima ao leito de um grande lago formado bem no meio da floresta. Tudo corria como de praxe, mas de repente a terra começou a tremer sob seus pés e depararam-se com uma criatura nunca antes vista, não somente por ali, mas também em suas vidas. Um gigante com chifres e longas garras chegou em uma velocidade assombrosa, já tirando a vida de metade dos que estavam ali somente com uma investida. Alguns tentaram lutar, mas chances não existiam contra aquele ser tão superior. Bateram em retirada e somente três, incluindo Dermont, saíram com vida.
A floresta e eu nos entendíamos muito bem, aliás, nós conversávamos de uma maneira inexplicável, mas que simplesmente funcionava. Mesmo sem palavras, eu sabia exatamente o que ela dizia e sentia, e eu sempre soube que existia algo além do que eu já conhecia. Ela respondia de acordo com os sentimentos que circundavam as atitudes para com ela tomadas. Era totalmente recíproco, independente do que fosse. Diversos monstros de diferentes tipos começaram a tomar conta do local para protegê-la e aquele território que outrora transmitia paz e calmaria, se tornou um terreno denso, sombrio e perigoso. A floresta chorava, e eu junto com ela. Eu não tinha forças, não podia fazer nada, mas logo isso também mudaria. Acompanhei toda a mudança e minha lealdade se demonstrou intacta, não importava o que ali acontecesse ou como ela se transformasse. Na realidade, eu comecei a acompanhar cada mudança e pouco a pouco passávamos a nos tornar uma só.
O clímax daquela fase estava para acontecer. Dermont ampliou seu exército e avançou com dois mil homens para tomar o controle da floresta de vez.
Talvez aquilo fosse um pouco além do que podíamos suportar, e na manhã daquele dia, tomamos a única atitude possível para nos defendermos e enfim escrevermos o último capítulo daquela história.
A floresta se manifestou como nunca antes havia feito e pela primeira vez fomos capazes de trocar olhares e nos tocarmos. Naquele momento nossas almas se unificaram por completo. Como parte dela, minha humanidade foi deixada de lado e passei existir como real essência daquele lugar. Mantive meu corpo, mas por ele fluía todo o sentimento e força da floresta, afinal, passamos de fato a ser um só. Juntas fomos capazes de impor uma força nunca antes vista, e na noite daquele mesmo dia, vencemos, mas diante da vitória, novamente choramos, pois depois de tanto sangue derramado e ódio propagado, talvez nunca mais a luz pudesse dar lugar a toda aquela escuridão.