De cinco em cinco dias ela chega, senta naquela mesma mesa, a mais isolada da taverna, senta-se no mesmo banco, na mesma posição e ali permanece calada e imóvel durante horas ao longo de toda a noite.
- Olha quem vem ali, Bart.
- É, Jon, lá vem ela. E eu não consigo me acostumar com isso.
- Tentaram conversar com ela da última vez, você ficou sabendo? – Disse Jon enchendo sua quinta caneca de cerveja.
- Sério? E aí?
- Foi o Razan. – Jon em um só gole finaliza metade da caneca. – Ele sentou-se na mesa e a encarou por alguns instantes sem falar nada.
- Justo o Razan? – Disse Bart esbugalhando os olhos. – E então?
- Ele esperou que ela ao menos retribuísse o olhar, mas não aconteceu. Então ele se levantou e derramou a cerveja que tomava em sua cabeça.
- Não acredito. – Disse Bart encostando na cadeira e apoiando as mãos na mesa. – Continua!
- E foi isso.
- Como assim foi isso?! – Questionou Bart, debruçando-se sobre a mesa.
- Exatamente. O estranho é que Razan na mesma hora foi embora da taverna e já não aparece aqui há três dias.
- Nossa. – Disse Bart bem baixinho, cruzando os braços e encostando-se novamente. – É verdade. Alguém sabe dele?
- Não foi mais visto em lugar algum, nem mesmo no salão da guilda da cidade onde passa a maior parte do tempo esperando por alguma missão que lhe interesse.
- Não quero nem pensar sobre isso. – Bart olha para a pessoa misteriosa por cima dos ombros e se aquieta.
- Disseram que a cerveja escorrendo pelos seus cabelos fez com que a venda que cobre o seu olho se deslocasse alguns milímetros, e foi o suficiente para que ele enxergasse o que tem por baixo. Alguns dizem que o olhar dela é capaz de apagar as memórias de quem o encara diretamente, além de recriá-las e transformar completamente o inconsciente da pessoa. Talvez o Razan esteja por aí vivendo uma nova vida tendo esquecido quem ele é.
A única coisa que era de conhecimento de todos, é que ela era uma elfa. Condição evidenciada pelas orelhas longas e pontiagudas. Sempre usava a mesma roupa: Uma cota de malha com uma blusa de manga comprida marrom por baixo, uma calça escura com alguns rasgos e botas de couro pretas. Cobrindo o olho esquerdo, uma venda encardida, e o direito possuía um branco acinzentado que ao mesmo tempo em que não demonstrava expressão alguma, parecia armazenar toda a angústia e sofrimento vividos ao longo dos anos. - Dizem que sua família morreu aqui, naquela mesma mesa. Há muitos anos a cidade foi invadida por orcs e ela estava aqui com seus pais e os irmãos. Era uma família simples, seu pai trabalhava na fazenda onde principalmente tomava conta das plantações. Sua mãe dava aulas de pintura e seus dois irmãos eram bem novos, por volta dos cinco anos, gêmeos, e ficavam sob os cuidados do pessoal do orfanato durante o dia. Ela era a única guerreira da família, uma espadachim importante no exército local, que por sinal o abandonou. Era aniversário dos pequenos e ela esqueceu os presentes em casa. Foi pegá-los e ao voltar, viu a taverna incendiada, atingida por um enorme pedregulho flamejante lançado por uma catapulta.
- É verdade isso? – Perguntou Bart.
- Bom, foi há mais de cem anos. – Jon empurra a caneca de cerveja para perto de Bart, que a pega e volta a beber. – Eles eram os únicos elfos na cidade e quem viveu aquele momento, hoje já não vive mais. São histórias.
- Alguém sabe o que ela faz quando está fora daqui? – Perguntou Bart, agora enchendo a caneca de Jon. Já era a oitava.
- Alguns dizem que já a viram pegando algumas missões na guilda, mas questionei as atendentes e nunca reportaram nenhum retorno ou recompensa em seu nome. – Jon para e respira fundo dando de ombros. – Vê a cabeça de águia em seu pescoço? Então. Parece que ela sozinha deu conta daquele monstro que fez um ninho bem próximo ao local do rio onde nossos fazendeiros buscavam água. Ninguém conseguia chegar perto e a cidade passou sede por uma semana. A águia era enorme, cerca de dez metros de altura e ao contrário dos que contam sobre o poder sombrio no olho direito, outros afirmam que foi obra do animal. Perceba que apenas a face esquerda fica em evidência. Dizem que tudo o que o olho da águia no colar enxerga, ela também consegue ver e é por isso que não direciona o seu próprio para nenhum outro lugar. Presente de um mago que construiu o artefato com pedaços da pupila do monstro.
- Já ouvi dizer que ela vendeu a alma ao demônio Krazzaki. – Disse Bart enchendo mais uma caneca de cerveja, para ele, a terceira. – E foi ela quem orquestrou a invasão dos orcs aquela noite, tendo como consequência a morte da própria família e por isso a lamentação por anos nos cantos da taverna.
- Achei que não soubesse nada sobre a família dela, Bart. – Jon pela primeira vez deixa a caneca de cerveja de lado e indaga com certo espanto – Por que questionou se o que falei era verdade?
Naquele momento a elfa misteriosa se levanta e sai pela porta da frente, como de costume.
Quer segui-la? – Perguntou Bart.
Os dois ficam se encarando e sem esperar uma resposta, Bart se levanta e direciona-se para a porta. Jon estranha a situação, mas segue logo atrás. Ela sempre saía no mesmo horário, caminhava pelas mesmas ruas e entrava em sua casa, uma velha cabana nos fundos da cidade. Mas naquela noite foi diferente. - Bart, você viu? Para onde será que ela está indo? – Perguntou Jon assustado.
Bart permaneceu em silêncio e ambos continuaram a perseguição. Ela seguiu rumo a uma cripta abandonada próxima ao portão principal. Os dois amigos mantinham a distância de uns bons metros para evitar que fossem percebidos. - Bart! Me responde!
Bart continuava quieto, e quando perceberam estavam escondidos atrás de um banco velho observando a elfa parada de pé em frente a um altar encarando a luz da lua que entrava pela janela. De repente tudo se escureceu e ela sacou sua espada. Bart levanta e caminha em sua direção. Jon desesperado tenta puxá-lo de volta, mas de nada adianta. A elfa os percebe e ao olhar para trás, sua venda não mais cobria seu olho direito e uma sombra negra deles se aproximava.
O que aconteceu depois? Uns dizem que ela foi até lá enfrentar Krazzaki. Outros dizem que Bart era o próprio demônio. Alguns afirmam que ela é um demônio. Enfim, são histórias. - Amigo, mais uma cerveja, por favor!