– E então, vamos?
– Aonde?
– Você sempre responde assim, pai. Você me disse para quando eu me sentir preparada, para te avisar e enfim partirmos juntos em nossa primeira missão.
– E você realmente acha que está pronta?
– Claro! Você me treina há anos e eu nunca apontei minha espada para nada além do seu pescoço. Eu preciso de uma experiência real, pai. Já passou da hora.
– Tudo bem então. Vista-se e vamos.
– Peraí. Sério?
– Ué, você não está pronta?
– Tá bem, tá bem! Já volto! Espera aqui!
Talia, doze anos, uma criança talentosa, esforçada e também teimosa. Desde bem nova é treinada pelo seu pai, um forte guerreiro com um currículo extenso de aventuras e missões cumpridas pela guilda local, mas hoje, aposentado, atua como ferreiro por hobby, fazendo armas e armaduras incríveis para quem ele tiver vontade. Bem requisitado na cidade, mas só aceita um trabalho quando se sente inspirado.
– Pronto! Espera, mas você vai assim?
– Sim. Algum problema?
Talia se vestiu com uma armadura de couro feita com muito zelo pelo seu pai. Ombreiras compostas por um metal bem leve encontrado nas montanhas ao sul da cidade, que aliás, foi coletado um a um por ela mesma. Ele forjava o que ela quisesse desde que trouxesse por conta própria todo o material. Botas também de couro leve, afinal, ela treinava para ser uma assassina, então era necessária muita leveza para que pudesse ser ágil. Um cinto simples somente para guardar sua espada e pendurar alguns outros utensílios. Ao contrário dela, equipada da melhor maneira possível, seu pai vestia apenas uma camiseta de manga comprida aberta no peito, mangas arregaçadas, uma calça que usava para passear na cidade, uma bota que ganhou de aniversário de um amigo para limpar sua loja e a espada que usava para treinar com a filha.
– Bom, você sabe o que faz, né. E então, para onde vamos?
– Goblins.
– Sério, pai? Você me treina há mais de cinco anos para que nossa primeira missão juntos seja matar goblins? Mesmo?
Ele ficou em silêncio e focou sua atenção na estrada pela qual começaram a caminhar. De poucas palavras e respostas curtas, manteve a atenção no caminho e não dialogou em momento algum com a filha por cerca de uma hora. Ela estranhou, mas a empolgação era tanta que não deu muita atenção a atitude atípica de seu pai, que normalmente costuma falar bastante.
– Chegamos.
– E então, qual o plano?
– Estão formando um acampamento próximo daqui, então devem existir guardas pelas redondezas. Avistei quatro naquela ponte, mas podem existir mais. Vou atraí-los e partir para cima do ancião. Você cuida do resto.
– Ancião? Por aqui? Por que deixariam um goblin desse nível apenas para vigiar o perímetro?
– Sim. Um ancião costuma liderar pequenos grupos, e proteger os arredores é uma das prioridades, já que precisam de segurança para focar na construção do acampamento.
– Entendi. Tudo bem então, v…
Sem deixar que ela terminasse a frase, ele correu em direção a ponte e logo deu de cara com os quatro goblins que comentou ter avistado. Partiu com uma velocidade e violência que Talia nunca havia visto antes, e somente essa postura foi o suficiente para assustá-la. Com uma investida de ombros, derrubou os três goblins comuns que protegiam o ancião e começou um duelo direto com o maior deles.
– Talia, me proteja!
Talia ficou parada observando enquanto seu pai avançou sozinho, demorou para agir, mas enfim partiu para a ação.
Foi com bastante firmeza e confiança para cima dos pequenos, mas encontrou uma resistência que não esperava. A ideia era começar pelo menor que estava caído, mas ele surpreendeu defendendo seu golpe apenas com uma faca.
– Talia, suas costas!
Olhou para trás e os dois outros já haviam levantado e partiam para cima. Talia se defendia com maestria dos ataques, mas eram três contra um. Em meio ao bater das lâminas entre espada e as pequenas adagas dos goblins, alguns golpes passaram. O primeiro cortou o posterior da coxa de Talia e um segundo passou de raspão em seu olho direito, que foi o suficiente para que ela não conseguisse mais abri-lo. Mesmo diante dessa situação, não se apavorou, até que ela percebe uma flecha vindo em sua direção. Desvia, e o projétil acerta bem no peito de um dos goblins. Naquele momento seu pai percebe um perigo que não havia premeditado. Sua feição se fecha, e em um milésimo de segundo termina a batalha com o ancião, arrancando seu pescoço com um golpe limpo graças a uma lâmina muito bem afiada. Ele tira uma faca de seu cinto e a lança em direção a uma árvore. Um quinto goblin cai pelas folhas com a faca fincada em sua cabeça.
A batalha entre Talia e os outros dois goblins continuava, e ela, mesmo espantada com aquela cena, permanece focada. Com um a menos, as coisas ficaram menos difíceis e com um golpe parecido com o de seu pai, corta a cabeça de um deles. Naquele momento ela reagiu de forma bem estranha, afinal, além dos porcos que às vezes abatia para o jantar, nunca tinha matado algum outro ser vivo.
O último goblin naquele momento começou a atacar com muito mais fúria. Parecia que ele estava sentindo profundamente a morte dos outros e aquilo o deixou mais forte, e movido pela aparente raiva, conseguiu fincar a adaga no ombro de Talia. Ela grita de dor, mas ao mesmo tempo segura o goblin pelo pescoço, o joga no chão e finca sua espada também em seu ombro, porém mais próximo ao peito. Naquele momento a criatura começa a gritar de forma perturbadora e ela fica imóvel observando aquela cena.
– Finalize, Talia. – Disse seu pai.
Ela estava em choque e não se movia. A sensação da espada cortando a carne e o posterior grito de dor e desespero eram coisas que Talia não imaginava que causaria tanta aflição.
– Talia, faça.
O goblin começou a se arrastar para longe dos dois, cada vez gritando mais alto. A dor parecia ser imensa, mas mesmo assim ele continuava lutando pela sua vida.
Ela respirou fundo, caminhou em direção a ele e fincou a espada em seu coração, colocando fim ao seu sofrimento.
– Você pode me dizer o que aconteceu?
– Pai… eu não sei.
– Goblins, trolls, slimes, cyclops, wyverns, dragões. Não importa, minha filha. Eles não são apenas criaturas que você mata em troca de moedas de ouro ou para ter seu nome protagonizando as canções de um bardo na taverna da cidade. Esses goblins estavam protegendo algo. Esse algo era um acampamento. Os outros vão saber e vão aumentar a defesa do local e até mesmo quem sabe marchar em busca de vingança com um exército. Toda ação tem uma reação. Vivemos em um mundo habitado por milhares de raças diferentes e constantemente estamos lutando para nos mantermos no topo da cadeia alimentar. Tudo é muito bonito quando vira história, mas a caminhada é longa e árdua para que as linhas desses contos sejam compostas de belas palavras que descrevem grandes feitos.
– Agora, recomponha-se e pegue o que conseguir dos corpos. O cajado do ancião você pode deixar comigo, mas guarde os colares que os goblins carregavam e suas adagas. Vai conseguir trocar por algumas moedas nos mercados da cidade. Ah, pegue essa faca. Use-a para arrancar o couro da cabeça daquele último e tente deixar o cabelo intacto. Cabelos de goblins são valiosos para usar como enfeite de alguns tipos de tapeçarias e almofadas. Existe gosto para tudo nessa vida.
Talia permaneceu calada e nem sequer piscou por alguns minutos após seu pai parar de falar.
– E então, você realmente acha que está pronta?