Várias são as histórias contadas sobre feitos de heróis que se uniram para derrotar algum terrível monstro em uma dungeon ou proteger vilarejos de invasões, sempre destacando suas incríveis habilidades e vitórias épicas. Mas e quando falham?  Não me lembro da última vez que escutei sobre algum grupo que voltou desfalcado de uma missão, sobre cidades que viraram pó ou foram dominadas por outra raça que escravizaram seus habitantes. Quando escuto, é sempre superficial e ignoram os detalhes. Estou aqui para contar algumas de minhas aventuras, pois acredito ser importante.

Eu sobrevivi. Não sei dizer se foi porque sou habilidoso, se foi sorte ou se os Deuses assim quiseram. Não existe ninguém bom o suficiente para sentir-se completamente seguro de que voltará de uma missão com vida ou de que é páreo para qualquer um ou qualquer coisa. Tenho uma bonita armadura, minha espada é feita de um metal raríssimo. Minha casa fica em um dos pontos mais bonitos de uma das mais belas cidades e sou reconhecido em todos os lugares por onde passo. Estou no patamar em que muitos sonham chegar, mas qual o preço disso? Incontáveis foram as mortes que presenciei, tanto as comemorando quanto lamentando. Muitos morreram em minhas mãos e também por elas. Mas isso tudo faz parte da escolha que fazemos ao partirmos em busca de reconhecimento e glória.

A primeira história talvez foi a que mais me marcou. Eu estava há um ano viajando com um grupo que conheci da maneira mais esquisita possível e imagino que seja por isso que nos tornamos grandes amigos. Sentíamos que éramos invencíveis, pois travamos grandes batalhas, saímos vencedores de todas e isso nos empolgou de tal forma que nos levou a cometer o maior erro de nossas vidas. Nossa formação era composta por dois guerreiros, incluindo eu, uma maga e uma sacerdote. Pegamos em uma taverna a missão de matar o demônio Beredith que tomou conta das minas daquela cidade e impedia seus moradores de explorar suas riquezas. Como recompensa, quarenta moedas de ouro e bebida à vontade por conta da casa por um final de semana inteiro. Nossa preocupação já estava na ressaca, tamanha era a confiança que tínhamos no sucesso. Com o tempo fomos deixando cada vez mais de lado o uso da inteligência por confiarmos em nossa força. Sempre fomos muito cautelosos e só partíamos para ação quando tínhamos segurança de que conhecíamos o máximo possível o território em que íamos pisar e o que íamos enfrentar. Até então, sempre que chegávamos ao local, tudo era mais fácil do que imaginávamos, a vitória vinha com facilidade e isso subiu à nossa cabeça. Naquela noite tudo seria diferente.

Chegamos à mina e seguimos como de costume. Barthô e eu na frente, Cecília e Hilda atrás. Em 30 minutos de caminhada não encontramos uma alma viva sequer e até então tudo parecia calmo demais. Demônios costumam ter uma grande tropa de monstros protegendo o local que dominam, mas esse não era o caso. O local já era escuro, mas lentamente o clima era tomado por uma escuridão diferente, não sei explicar. Hilda com seu cajado formando uma tocha tentava iluminar o local, mas a luz da chama não atingia mais do que um metro de distância. Aquilo era estranho. Não conseguíamos enxergar nada a nossa frente. Lentamente comecei a ouvir uma respiração lenta e profunda bem rente ao meu ouvido. Eu sabia que não era nenhum dos meus amigos. De repente um vento súbito e curto apaga a tocha de Hilda, e junto com a luz, nossa amiga também desaparece. Barthô entra em desespero, começa a desferir golpes com seu machado gritando por ela. Cecília e eu demos as mãos e ficamos rente a parede para evitar que fôssemos atingidos pelos golpes. Logo os gritos foram diminuindo e somente escutávamos o som que a lâmina fazia no ar. O chamávamos, pedíamos para se acalmar, mas ele não respondia e continuávamos a perceber somente o vulto do machado. Os gritos cessaram. A frequência dos golpes foi diminuindo, diminuindo e logo também parou. Caminhamos em direção a ele, mas nada encontramos. Barthô desapareceu. Cecília também entrou em pânico e não parava de chorar. Tentei acalmá-la, fiquei abraçado com ela sentado no chão em meio a escuridão por longos minutos e consegui encorajá-la a seguir em frente, afinal, nossos amigos precisavam de nós.

Cecília era muito forte. A melhor retaguarda que tive em um grupo. Nunca falhava em nos proteger, seja com qualquer tipo de defesa contra ataques ou timing de cura. Era impecável. Nos aproximamos muito ao longo daquele ano e a via como uma irmã. A conheci no festival de inverno na cidade de Telaria onde ambos formamos uma dupla na competição de quem comia primeiro uma das gigantes tortas de maçã feita pelo chef mais famoso da região. Detalhe: estávamos bêbados. Vencemos, mas meia hora depois estávamos de mãos dadas vomitando em um beco da cidade e formando uma bela amizade. Era uma ressaca parecida com a do dia posterior a esse que eu planejava viver com meus amigos no retorno triunfal para a taverna e pensando nisso, prossegui.

Continuamos em frente, de mãos dadas, mas foi por um segundo, ao soltar a mão de Cecília para coçar os olhos com a mão esquerda, pois com a direita segurava minha espada, ao buscar seus dedos novamente, nada encontrei. Dessa vez fui eu quem entrei em desespero. Comecei a gritar por ela e junto à aflição, me entreguei ao ódio, cai de joelhos e chorei. Levantei subitamente e comecei a correr em frente sem pensar em nada. Aquele suspiro novamente se fez presente em meus ouvidos e superava o meu estado ofegante consequente da corrida. Ignorei, continuei em frente cada vez mais rápido e quanto mais eu avançava, mais intensa a aquela respiração ficava. Comecei a enxergar uma luz distante que foi se aproximando, se aproximando e enfim cheguei aonde eu nunca queria ter chegado. Diante de mim, Beredith. Ela me olhava fixa e friamente enquanto segurava as cabeças de meus amigos com alguns de seus inúmeros tentáculos. Eu fiquei petrificado e realmente não consigo detalhar o que senti naquele momento. A sensação era de entrega. Soltei minha espada, caí de joelhos e fiquei observando aquela cena somente esperando que ela fizesse comigo o que fez com eles. Fiquei ali por alguns instantes e nada acontecia. Simplesmente levantei, peguei minha espada, dei as costas e comecei a caminhar. Logo estava fora da mina e não sei porque ela me deixou ir embora. Nunca vou esquecer a maneira como me encarava e diversas são as frases que aquele olhar me passava: “O que você vai fazer?” “Você é quem causou isso” “Você é fraco”. Dentre outras. Eu tive a chance de fugir com Cecíla, mas não o fiz. Talvez fosse a melhor decisão, aliás, nunca deveríamos ter entrado ali daquela maneira. Essas foram minhas primeiras perdas e meu primeiro grande trauma, e também é disso que grandes guerreiros são formados.

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