SHIRON E A BESTA

Ele se cansou e decidiu partir sozinho para uma missão que talvez não tivesse volta.

Já tinha perdido amigos, familiares e companheiros. Aquela criatura saiu vitoriosa em todas as cinco vezes em que tentaram matá-la. Tirou incontáveis vidas sem ao menos sofrer um arranhão. Totalmente impiedosa, vivia escondida na escuridão de uma floresta e poucos foram os que saíram vivos depois de um encontro com a besta. Shiron foi um deles, talvez o único. Naquela manhã de domingo, foi ao reencontro do temível monstro, sozinho. Forjou uma nova espada com o minério mais raro da região, o qual levou semanas para conseguir o montante necessário. Seu escudo foi totalmente reforçado para suportar os fortes golpes e as garras afiadas do animal. Optou por uma armadura mais leve, pois seria necessário agilidade para combatê-la, afinal, ele estaria sozinho. Shiron era movido por ódio e tristeza. Em seu rosto, somente um sério semblante, sem mais nenhuma expressão. Um olhar profundo, cheio de sofrimento, claramente de alguém que já tinha perdido a alegria de viver e estava disposto a sacrificar o que fosse necessário por vingança. Teoricamente uma ideia completamente maluca. Grupos enormes tentaram e não obtiveram êxito. Guerreiros, magos, sacerdotes, sozinhos, juntos, de todas as formas possíveis e usando diversas estratégias diferentes, falharam, mas Shiron tinha um plano e acreditando nele, partiu. A floresta ficava a poucos quilômetros de sua cidade. Era possível sentir o clima mudando a cada passo, o ar ficava mais frio e uma neblina começava a tomar conta do ambiente. Esse lugar já foi diferente, ele era maravilhoso. Uma fauna e flora únicas. Viajantes paravam ali para descansar e se banhar nas águas cristalinas do rio que cortava o lugar. Mas ela chegou, tomou conta e trouxe terror e sombras para o que antes era pura beleza e calmaria. Ao dar o primeiro passo dentro da floresta, Shiron sentiu uma forte pressão em seu corpo e logo ouviu um grito extremamente alto e agudo que o ensurdeceu por alguns instantes. A criatura nunca tinha se manifestado, expressado ou mesmo se comunicado de alguma forma. Ela matava silenciosamente, e somente isso.

Ele logo se recuperou e continuou seu caminho. Com sua espada na mão direita e escudo na esquerda, seguiu floresta adentro se esgueirando por detrás das árvores, sempre alerta. O encontro aconteceu antes do esperado. Shiron percebeu um vulto passando, olha para cima e ali estava ela, parada entre os galhos de uma árvore enorme olhando fixamente para ele. A batalha estava para começar.

Shiron e a besta ficaram estáticos por alguns segundos, ambos se observando fixamente. Silêncio total. De repente, em um instante que ocorreu durante um piscar de olhos, a criatura se deslocou em uma velocidade impressionante e parou exatamente na frente de Shiron. Entre seus rostos, apenas um palmo de distância. Shiron estava paralisado. Uma sensação inexplicável o impedia de mover um dedo sequer. Alguma habilidade da besta? Seria medo? Não se sabe o motivo, mas ela o tinha em suas mãos naquele momento. A criatura levou suas garras até o rosto de Shiron, que permanecia imóvel e lentamente fez um corte que ia do início da orelha até o canto de sua boca. A besta recuou e saltou para cima por entre os galhos das árvores e desapareceu na escuridão. Era um desafio. Nunca alguém tinha entrado no seu ninho e saído vivo a não ser Shiron. Ela se recordava claramente do homem que outrora lhe escapara e aquilo foi só um aviso para alertar que daquela vez ele não sairia de lá com vida. O que ela não sabia, é que talvez ele já soubesse disso. Naquele momento foi percebida a existência de um ódio mútuo entre os dois. Ele a odiava pelas mortes causadas e ela o odiava por ter fugido vivo de lá. Shiron recuperou seus sentidos e novamente começou a caminhar pela floresta. Não existia mais nada naquele lugar alem de sombras e sangue. Tudo que ali entrava, lá ficava. A criatura parecia ter como único objetivo aniquilar qualquer ser vivo que ali pisasse. Onde nada se escutava, começou a ser ouvido um som de uma corrente chacoalhando. Nada muito pesado, pelo contrário, era leve. Shiron olhou para cima e viu caindo do céu alguma coisa. Estendeu as mãos e pegou o objeto. Era o colar do seu melhor amigo que foi morto durante a última expedição e que ajudou Shiron a escapar. Ele olhou fixa e friamente para aquilo e sem expressar qualquer sentimento ou modificar seu sério semblante, colocou o colar em seu pescoço e continuou. Enquanto caminhava, novamente a criatura soltou um grito agudo e ensurdecedor. Antes que pudesse se recuperar, Shiron percebeu um vulto pela esquerda. Ela iria atacar.

Mesmo conseguindo girar o seu corpo e se posicionar para defender o ataque, a besta com suas garras afiadas destruiu completamente o escudo e junto com ele, decepa o braço esquerdo de Shiron. A criatura parou a alguns metros à frente, pegou o braço decepado e o engoliu. Após isso, novamente desapareceu na escuridão. Shiron não se impressionou e continuava com o sério semblante no rosto, sem expressar sequer um pingo de dor. Arrancou um pedaço de pano de sua armadura e enrolou no que restou de seu braço para estancar o sangramento. Segue adiante e se depara com um abismo que ficava exatamente no meio da floresta. Seguiu até a sua beira, ficou de costas para o enorme buraco e esperou. Ele sabia que ela apareceria em instantes. A besta apareceu descendo lentamente por uma enorme árvore ao lado do abismo. Novamente paralisado, Shiron não conseguia se mover e tudo que podia fazer era aguardar o que a criatura faria dessa vez. Ela se aproximou e começou a observá-lo, deleitando-se com o momento, pensando em como iria matá-lo.  Sem pensar muito, um rápido golpe usando suas garras atravessou a barriga de Shiron. Naquele instante, naquele segundo, Shiron sorriu. Era o momento que ele esperava. O ferimento permitiu que se movesse e dando o último suspiro, conseguiu erguer sua espada em direção ao rosto da besta que ainda estava com as garras cravadas em seu corpo e fez um leve corte que ia de sua orelha até o meio da face. Esse era o plano de Shiron. Era impossível se aproximar de uma criatura tão veloz e mortal. Ele sabia que ela sentia prazer em cada morte e que com ele, ela iria querer aproveitar de uma forma especial. Ciente disso, ao forjar sua espada, envenenou sua ponta com uma toxina letal extraída de um raro animal, o lagarto de papo dourado, encontrado somente no imenso deserto de Kerashia. A besta começou a agonizar, deu seu último suspiro e ambos caíram juntos nas profundezas do abismo. Shiron não desejava voltar para casa, pois motivação para viver não mais existia e tinha como certa a sua morte em troca de seu objetivo. Conseguiu vingança, mas também algo muito maior. As lindas cores e a água cristalina daquele rio deram lugar às sombras e aquela floresta voltou a ser um lugar de paz e calmaria.

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