Victor sempre teve grandes ambições. Queria estar no topo, comandar, sentar no trono e ser reconhecido pelo seu povo e o resto do mundo. Apesar de muito esforçado, tinha seu coração repleto de ódio e inveja daqueles que se destacavam e o superavam em qualquer quesito. Ele já não aguentava mais, e o ápice de sua raiva se deu quando Reno, um jovem guerreiro de vinte e cinco anos, dez a menos que ele, foi promovido em seu lugar, vencendo uma disputa direta à patente que tanto almejou durante toda a vida. Victor reclamou com seus superiores e teve todos os seus questionamentos refutados e pedidos de reexame negados. Voltou para casa naquele dia com tanto ódio que maltratou sua mulher e filhos, quebrou vários pertences, deixando todos com muito medo. Sabiam que ele era assim, nervoso e explosivo, mas dessa vez tinha passados dos limites. E aquilo era só o começo. 
Naquela mesma noite, caminhou até a cabana de um conhecido, decidido a conquistar o que queria.
– Merion, invoque-o! – Disse Victor, quase quebrando a porta ao entrar no local.
– Como assim, Victor? O que aconteceu?
– Eu mandei você invocá-lo! Faça! Agora!
– Victor, você não pode tomar tal decisão tomado pela raiva. Pode se arrepender depois.
– Eu não pedi a sua opinião! Eu mandei invocá-lo! – Disse Victor, com os olhos cheios de fúria, apontando uma faca contra a garganta do velho. 
Merion se dirige ao fundo da cabana, abre um baú que ficava escondido em um alçapão e pega um livro preto com detalhes dourados. Na capa estava escrito “Krazzaki”. Ele o abre bem no meio e começa a recitar algumas palavras.
– Sharak linar, thodros imula vein. Krazzaki ishra zek’n trok. Krazzaki, ishra zek’n turuk!
Janelas e portas começam a se bater, um cheiro de amônia toma conta do lugar e uma sombra escura começa a se formar nas paredes e cada vez mais ia tomando forma. Victor e Merion estavam ali, sérios, apenas esperando. Eles sabiam o que estavam fazendo. Tudo se acalma e a criatura aparece. Sem uma forma bem definida, realmente apenas uma sombra negra que se moldava em alguns instantes, dependendo do movimento e como se expressava.

– Merion? Estou surpreso. Faz muito tempo desde que…
– Sim, Krazzaki. Faz tempo. Mas hoje não sou eu quem quer falar com você.
– Sou eu quem deseja alguma coisa por aqui, demônio. E estou com pressa. – Disse Victor.
– Hum… Você tem muita coragem em falar comigo dessa forma, humano. – Disse Krazzaki, flutuando para trás de Victor e apoiando suas mãos em seus ombros. – Eu te conheço e sei como tudo isso funciona. Eu matarei Reno, trarei a cabeça dele aqui para você e dessa forma terei o que eu quero concedido.
– Acha que é assim? Não é você quem vai decidir que sangue fará escorrer para obter o que quer.
– Como assim?! – Gritou Victor. – Que história é essa? Você não pode mudar a forma como as coisas funcionam!
– Como? Hahahahahahaha – Gargalhou o demônio. – Eu posso fazer o que eu quiser. E dessa vez será assim. – Me diga logo então o que eu preciso fazer.

– Me traga a cabeça de um de seus filhos e terá qualquer coisa que desejar.
– O quê?! Meus filhos? – Victor saca sua espada e aponta para o demônio. – Quem você pensa que é?! Isso é ridículo! – Eu sou algo que você não deveria ter brincado.
– Victor, você sabe que ao invocá-lo, é impossível negar seu pedido. Caso o faça, ele matará você e sua família. – Disse Merion.
– Merion, mas isso não pode acontecer. Você sabe, você já fez. Não era necessário apenas trocar uma vida qualquer pelo pedido?
– Sim, foi o que eu fiz. Foi o que aqueles dois também fizeram. Mas isso nunca foi uma regra. Foi somente o que ele costumava pedir. 
Victor começa a se descontrolar e a raiva dá lugar ao desespero.
– Você não pode fazer isso comigo! Eu mato quantos você quiser, mas minha família não! Me diga, quantos? dez? vinte? Eu trago a cabeça da família real inteira se você me pedir! O que acha?! – Hahahahahaha. Eu me divirto com vocês. Essa impulsividade realmente é um dos seus maiores defeitos. Eu já disse o que eu quero e isso não vai mudar. – Disse Krazzaki. 
O demônio tinha prazer em ver os seres humanos perdidos em seus desejos e o que são capazes de fazer para conquistá-los. Sua real intenção era levá-los ao extremo, pois acreditava que todos tinham uma alma suja, facilmente corrompível. – E então, humano, o que me diz?

– Eu preciso pensar. – Disse Victor dando as costas à Krazzaki e indo em direção a porta.
– Você tem um dia para fazer o que eu pedi. Caso não faça, Merion já te disse o que acontecerá. Estarei esperando no altar dentro da floresta. Amanhã as consequências de seus atos virão à tona, seja lá qual for a sua escolha. 
Krazzaki desaparece e Victor fica estático por um momento. Já entregue à tristeza, desespero e arrependimento, não conseguia mais se expressar e só lamentava em silêncio por ter feito o que fez. Ele sabia o que teria que fazer, mas não tinha ideia de onde tiraria forças para isso. Teria que seguir adiante de qualquer forma para evitar uma tragédia maior do que a que já estava para acontecer. – Victor, você precisa de ajuda? – Disse Merion, já ciente de que ele o faria.
– Não. Eu farei isso sozinho. Obrigado, Merion, e me perdoe por ter feito o que fiz.
Merion olhou para Victor, espantado. Nunca tinha o visto pedir desculpas a alguém, ainda mais dessa forma. Sinceramente. Seus olhos escorriam lágrimas a cada palavra pronunciada, mas sem mudar o tom de voz ou gaguejar. Ele estava sofrendo, e naquele instante, tudo tinha mudado em sua cabeça e seu coração. Victor demorou horas para chegar em casa. Caminhando a passos lentos, pensando no que tinha feito e também em toda a sua vida. Em como tinha chegado naquele ponto, no que tinha se transformado. Só sabia que agora teria que enfrentar as consequências.
Chegou e levou um de seus filhos para a floresta. Eram gêmeos. Dez anos. Não disse nada no caminho e segurava o choro para não assustar a criança. Levou o garoto à beira de um lago que sempre prometeu levá-lo, mas nunca o fez.
– Papai, posso brincar na água? Por favor! – Disse o garoto.
Victor se ajoelha, abraça o filho e começa a chorar. Toda a coragem que tinha criado se foi e ele não se aguentava de pé. Mas mesmo assim sabia que era necessário.
– Nada, filho. O papai só está um pouco triste, mas pode ir brincar na água sim, aproveite!

– Mesmo, pai? Vamos comigo! Assim você se alegra um pouquinho. 
Ambos se levantam e quando a criança vira as costas para correr em direção ao lago, Victor saca a espada e com um golpe limpo, faz o que tinha que fazer. Naquele exato momento, sentiu como se sua alma deixasse de existir. Não conseguia mais chorar ou expressar qualquer sentimento. Enterrou o corpo do filho e levou a cabeça até Krazzaki. – O que você quer, logo terá. Aproveite o resto de sua pobre vida em seu trono de pó. Tudo o que quis, agora está em suas mãos. – Disse o demônio, desaparecendo nas sombras da floresta.
Pouco tempo depois, o rei acaba falecendo devido a uma doença rara e Victor é eleito para substituí-lo. Ele estava onde queria, mas nada daquilo fazia sentido. Sempre sonhou com o que sentiria ao sentar no trono, mas quando lá estava, nada sentia. Um vazio tomava conta de seu coração, mesmo estando onde sempre quis e com o poder que sempre desejou. Uma semana depois, avisou à guarda real que sairia para caçar sozinho e desapareceu. No fim da noite, seu corpo foi encontrado pendurado por uma corda em uma árvore no lugar onde eram enforcados os maiores criminosos recém capturados. No seu cinto, encontraram um papel e nele estava escrito:
“O que importa não é o que você tem, mas sim com quem você divide o que conquistou”
– Krazzaki, o que você acha disso? Muda de alguma forma a sua concepção?– Disse Merion.

Eu existo há séculos e o que me alimenta é cada acordo que faço com os seres humanos. Isso não passa nem perto das piores coisas que vi sua raça fazer. Poucos me conhecem e eu continuo aqui, cada vez mais vivo. Merion, eu somente começarei a mudar o que eu penso quando eu começar a deixar de existir.

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