Era inverno. Mais uma manhã comum na vida daquele garoto que passeava com seu animal pelas montanhas. Naquele lugar, uma das únicas coisas que intrigavam e o fazia questionar o contexto em que vive.
– Seria um gigante ou apenas éramos maiores nessa época? Pode também ser um Deus antigo, um monstro, uma aberração. O que você acha, Joca?
– … – O animal olhava fixamente para o menino, como se estivesse entendendo tudo e quisesse responder.
– É. Parece mais uma obra do ser humano que construiu isso de alguma forma para nos fazer crer que algo fantástico outrora existiu. Eu fico indignado, Joca. Em um minuto eu consigo pensar em mil situaçõe diferentes que culminaram nessa cena que aqui avistamos. Uma briga épica entre seres místicos; a fúria de um Deus lançada sobre uma aberração antiga e cravada na terra para sempre para que servisse de lição; o próprio ser humano forjou uma espada lendária para destruir o ser que trazia terror na antiguidade. Olha quantas coisas, Joca. Mas todas são apenas situações hipotéticas. Sim, histórias são contadas, mas olha há quanto tempo algo não acontece? Aliás, Será que algo assim realmente aconteceu? Nem nossos pais afirmam ter visto algo diferente do que vimos hoje nessa terra. Nem nossos avós!
Joca continuava olhando fixamente para o garoto com um olhar de compreensão. Impressionante como era um animal expressivo.
– Nenhuma grande guerra, nenhuma ameaça, nenhum animal ou criatura mística assombrando algum lugar ou alguém, nada, absolutamente nada de tudo o que nos contam acontece ou ao menos parece que vai acontecer. Nossa preocupação hoje é arar a terra, plantar o que comemos, ajudar de alguma forma o nosso vilarejo e quem sabe no fim do dia algo possa nos entreter antes de deitarmos a cabeça no travesseiro e recomeçarmos mais um dia. Sem emoção, sem perspectiva de algo fora do comum. Eu tô cansado da nossa realidade, Joca. Eu vivo em um mundo de fantasia sustentado pela minha imaginação, torcendo para que em algum momento algo diferente aconteça nessa nossa terra pacata.
Somos educados a rezar todas as noites e agradecer o que temos, mas nunca uma resposta objetiva é nos dada por esses que adoramos e tanto vangloriamos em rituais e até esculturas gigantescas construídas nos centros das cidades. Eu peço todas as noites para que algo diferente aconteça e essa vida sem sal ganhe algum tempero, mas parece que eu falo para as paredes. Talvez sejam tão reais quanto as fantasias da minha cabeça.
Nesse momento uma brisa gelada começa a bater contra os dois. A neve, sacudida pela força da ventania, voa contra seus rostos tampando suas visões e a força com que o vento vem é tamanha que dificulta até a caminhada. Nada se enxerga no horizonte e tudo que se ouve é o som dos pássaros que parecem voar desesperadamente para longe dali. Um som muito estranho parece ecoar das montanhas causando mais arrepio que o ar gelado, deixando o garoto e seu animal amedrontados e acuados, sem saber o que fazer. De repente uma presença é sentida no meio daquele breu. O garoto abraça seu animal, apertando-o contra o seu peito e fecha os olhos com uma feição de desespero, como se estivesse esperando algo ruim acontecer e tudo cessa. O garoto abre os olhos e tudo está calmo como estava alguns minutos atrás. – Joca, você está bem? Por um momento eu… Não. Ou talvez sim?
O garoto e seu animal seguem de volta para casa, novamente, sem nada de novo. Mas aqueles segundos de tensão foram os mais memoráveis dos últimos anos para aqueles dois. Será que foi mesmo apenas a força do vento? Deixo que a imaginação de vocês tirem suas próprias conclusões.